"Quando se chega a uma certa idade, não se faz aniversário, se faz adversário.”
(Eu mesmo)

A VIDA E O SORRISO DO DIABO - 18.08.2008

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Se a vida fosse uma estrada, que copiasse uma eterna reta. Os emocionais em sua permanente penumbra, caminhariam menos desconfiados, não desviariam nas curvas, jamais seriam atropelados por caminhões imaginários e disfarçados de carrosséis.

Se a vida fosse uma reta, por mais monótona, melhor segura. Aboliria da vida as esquinas, onde os punhais tornam-se afiados e de uma dor aguda, cortante, lancinante. Nos cantos, laterais, há que se desviar a atenção, derrapar, deixar-se levar pelo sorriso do diabo. Enganoso e larápio, de tão belo.

Se a vida me desse o direito de escolher entre a faca e a pistola, ficaria com a impessoalidade, a pontaria e a rapidez da segunda . Um tiro, um baque, dependendo da perícia do portador.

Se a vida, reta fosse uma estrada, olharia apenas para a frente, o passado não significaria nada. Minhas dores, meus rancores, minhas mágoas, tudo seria jogado à margem, ao acostamento. Ao precipício das ribanceiras.

Quando consigo respirá-la(a vida), piso os pés no chão de areia, exata dimensão da nossa importância. Marca-se a passada, que some à primeira onda suave.

Sigo a vida sem dela nada exigir , a não ser tê-la própria e protegida, dos males que um dia colhi sem saber. Saber, poder, dominar. Já não tenho esses quereres, pelo menos o de não sofrer.

O resto é o asfalto da vida. Autódromo – sem curvas - do Deus-Tempo.

ESCÂNDALO DOS SULTÕES - 11.07.2008

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No tempo dos sultões, o poder tudo podia. Sultão é um título islâmico com diversos significados históricos. Originalmente, era um substantivo abstrato árabe que significava "força", "autoridade", "domínio”, “pujança”, “arrogância”, “superioridade material sobrepondo-se à igualdade racial”.

Os sultões, que tiveram em Istambul seu santuário ocupavam criptas quando morriam. Eram embalsamados. Ficavam mais feios que os defuntos comuns, que se decompõem, ficam esqueléticos e retornam ao pó. A morte moderna prevê o enterro em caixões, uns mais caros, outros mais baratos, em que cabe apenas uma pessoa vestida, com uma simples mortalha ou um smoking se a família preferir.

Descem todos para um lugar chamado túmulo, cova no interior, onde permanecem apodrecendo até desaparecerem por completo. Não é permitido o acesso de extratos bancários. Carros e mansões não cabem em função do espaço de sete palmos de terra. Crema-se também, quando o infeliz transforma-se num galeto até virar cinza igual às que saem dos cigarros. O tamanho é sem tirar nem por idêntico para o ricaço e o favelado.

Alguns sultões de Natal não perceberam isso. Meu queixo acaba de cair com a história contada pela mulher de um amigo meu – que deixarei preservadas as identidades até que a Justiça torne o caso público. É um casal trabalhador e destacado na cidade. O pai dela um grande amigo dos meus pais. O casal resolveu mandar o filho, que estuda num colégio tradicional, a um passeio na Disney. O menino foi convidado por outros dois para ficar junto com eles num quarto durante o passeio.

Tudo certo como dois e dois são cinco. A mãe foi chamada pela agência de viagens que comunicou: o seu filho não poderia ficar junto com os dois no quarto porque não era “compatível socialmente”. Ou seja, não poderia ficar com os sultõezinhos, filhos de gente que bem poderia ter a riqueza vasculhada pelas autoridades fiscais. A culpa não fora da agência que tentara conciliar, mas os dois casais de sultões, pais dos sultõezinhos inocentes, fincaram pé. Não queriam os dele com o do casal amigo meu.

Nenhum jornal vai publicar a história porque envolve gente poderosa, esnobe e preconceituosa. Rica e discriminatória. Que sequer imaginou o que passa pela cabeça do garoto que teve de sair de perto dos potentados para se juntar “aos seus”. Que educação terão os filhos dos sultões do jet? Serão ou já são meninos mimados, chatos, frescos, assim como os pais?

A mãe me garantiu que vai à Justiça. Tem que ir. É crime tipificado no Código Penal. Discriminação beirando a racismo. Dá de dois a quatro anos de cadeia. E lá todo mundo também é igual. Não tem banheira de ouro, carro importado, dólar estourando pelo ladrão. Ladrão até tem mas de padrão social diferente.

Fiquei revoltado, pelo sofrimento dos pais e por ter um filho da mesma idade que o deles.

Certas coisas não acontecem comigo. Ainda bem.

Fosse com meu filho, seriam dois sultões baixando a sepultura. Cada um com tiro no meio da testa. No cemitério também não há divisão de classe social.

VOLTAR É QUE É BOM - 10.07.2008

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Prefiro viajar de carro a de avião. Aliás, gosto mesmo é de ficar em casa. Quando saio é 99% a trabalho. Lazer longe da aldeia nem me anima. Bar? Tem aqui. Museu? Vejo no History Channel. Shoppings? Nem aqui nem lá.

A minha aversão pelas lonjuras vem da infância, quando morei obrigado em duas cidades: Recife(PE) e Cuiabá(MT), para onde o meu pai foi a trabalho. Deixava meus amigos, escola, minha avó querida, meus primeiros flertes, o ABC Futebol Clube. Ia à força, o que me torturava e revoltava. Os meus filhos jamais passarão pelo que passei a não ser que queiram.

Daí, torço o nariz para as programações em feriados. A agonia começa no arrumar das malas, na saudade do cachorro que fica, na fila do check-in, no atraso para o embarque, na demora para a decolagem, na impessoalidade da equipe de bordo, nas porcarias servidas como refeição, no choro dos meninos de colo, maracatus fotografando aeromoças e poltronas, no tempo que nunca termina.

Para atender à família, passei recentemente dois dias e meio em São Paulo(SP). Na ida, fui presenteado com um vizinho de poltrona americano. Não torcedor do América, mas nascido sabe-se lá no Texas. Enorme de gordo. Encostou a cabeça na janela e dormiu. Ele, sim, eu jamais. Roncava como um suíno, alto, desafinado. Roncava sonhando: “Fuck you!brulubudu!”. Soltava peidos químicos.

Desceríamos às seis da manhã em Cumbica. Teto fechado para pouso. Fomos a Confins, em Belo Horizonte. Ficamos até às 11 horas. Comi bolacha com Polenguinho e Coca-Cola. E quase propus um CD com as variações proporcionadas pela garganta do gordo que, àquela altura, juntava uma pequena platéia. “Roooooncyou...!”, grunhia, dando aqui e acolá umas babadas protocolares.

Chegamos em São Paulo. Fui à Livraria Cultura. Passei uma hora e meia. Comprei livros e DVDs. Voltei ao Hotel. De lá saí às 13h30 da terça-feira à procura de uma barbearia masculina que encontrei num shopping, chamado Eldorado. Encontrei um barbeiro legal, o Paulo Manga, filho de baianos. Falamos sobre futebol, eleição e praia, que ele adoraria visitar todo ano. Decidi ir ao hotel. Saí às 9 horas do dia seguinte rumo a Cumbica de onde retornei para Natal às 11h25. Meus companheiros de viagem felizes, para minha alegria. Foram a lojas e sulancas de todas as finesses.

Nas minhas viagens profissionais, o trabalho ocupa todo o tempo. Prefiro a diversão, se é que me atenho a este prazer, nas minhas imediações. Macaco velho não põe a mão em cumbuca assim como o malandro não entra no barraco alheio.

Admiro com economia aqueles que adoram viver no mundo. Principalmente os que vão a carnavais e frescurites do gênero. Pra mim, é prostituir o espírito. Eu acho que a nossa terra é a nossa alma. Longe é que se dá valor a ela. Viagem pra mim é assim. Voltar é a grande sensação de liberdade.

RISCOS DO CORAÇÃO - 12.06.2008

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Estou preocupado com meu filho de 15 anos. Ele está apaixonado. É a primeira namorada dele. Caio é parecido comigo. Fechado, desconfiado e completamente entregue quando gosta de alguém ou vai cumprir alguma missão. O romantismo parece o de um homem de antigamente: Flores, mensagens, mimos, telefonemas eternos e dolorosos para mim porque pago a conta.

Temo pelo meu filho. Um tímido nato, incorrigível. Acompanho de uma distância prudente a sua experiência – a primeira -, torcendo para que no seu caminho as alegrias sejam maiores que as decepções. O mundo que foi meu sempre foi diferente deste mundo que hoje Caio vive e convive. Sua namoradinha é uma doce figura, que o acompanha no cinema – sempre com uma amiga ao lado para vigiar – e estuda no mesmo colégio que ele.

Mas gostaria que ele entendesse que a vida nos tempos atuais é ingrata e mutante. As palavras definitivas são frases temporais num impulso seguinte. E que o meu filho esteja preparado para as frustrações que certamente virão, embora eu sonhe que este namoro seja o único e permanente da sua vida. Como era antigamente.

Na verdade, eu é que sou um pai chegado ao ciúme . O meu filho não é mais só meu e da mãe. Nunca mais aquele menino que eu acordava para abraçar e cantava o Filho Que Eu Quero Ter, canção de Toquinho e Vinicius, que simbolizou a minha euforia ao vê-lo nascer. Ultimamente, tenho revisto os álbuns dos seus primeiros aniversários, sorridente, inocente, encantador, chorando ao chegar à escola pela primeira vez. Se os filhos são para o mundo, o meu viverá para o bem e aprenderá que a lealdade e a confiança sobrevivem a tudo, para quem escolheu a dignidade como estandarte da alma.

Eu estarei sempre por perto. E ele nunca vai duvidar disso.

OS DONOS DO PEDAÇO - 06.06.2008

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Lá vêm eles, gigantescos, ameaçadores, reluzentes. Surgem como numa emboscada, de surpresa, donos do mundo. Se eles não pensam, seus proprietários têm absoluta certeza. Nas ruas de Natal, o desfile dos carrões de cabine dupla, pretos, pratas, dá um novo traço ao congestionamento de cidade-quase-metrópole-sufocada.

Certa tarde, foi comovente o drama de um motoboy de farmácia em sua 125 cilindradas, humilde. Durante 500 metros, foi perseguido como um Jerry pelo Tom que guiava uma Lux dessas aí, de óculos escuros a realçar sua boçalidade. Parecia querer esmagar o motociclista. Exibia um sorriso sádico ao volante. A motozinha foi ligeira como o rato do desenho animado. O sinal ia fechando e ela foi embora, enquanto o brucutu freava de forma ríspida, pneus igualmente assustadores.

Natal é uma cidade de exibidos. Há quem deva a escola dos filhos, o plano de saúde da mulher, da mãe e – de propósito -, o da sogra, os cartões de crédito, os empréstimos bancários, tudo para comprar uma caminhonete de nomes estrangeiros. São lindas e simbolizam a prosperidade de vitrine. Eu tenho uma menorzinha, discreta, minha mulher dirige, já que eu não sei, nunca aprendi e nem quero. Sou um passageiro profissional.

Já dá para conhecer o nível de um restaurante pelo estacionamento. Quanto mais cabines-duplas, mais dinheiro e dívidas haverão de ter os freqüentadores. Nas estradas, são os reis. Viajam as fazendas, nem sempre deles, aos shows maravilhosos de duetos sertanejos e bandas de forró.

Eles são o máximo, o clímax. Só fecham a cara quando chega o carnê com as prestações.

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