SOBRE RELÓGIOS - 14.03.2008

Queria ter a paciência dos relógios. Dos velhos relógios de parede. Daqueles que batiam dobrado, som tenso e grave como o dos taróis do filme o Homem Que Sabia Demais. Se eram duas da tarde, vinham quatro badaladas. À meia-noite, 24 bordoadas. Ficava bem no alto da parede da sala, relíquia dos anos 40, mimoso da minha avó e da minha tia-avó, que acordavam do sono no meio da novela das oito quando ele, acho que de propósito, sinalizava.
Gostaria de voltar ao tempo em que eu não sabia de nada. Mas os relógios, os de parede, se lenientes, não retrocedem. Marcam o passo cansado da vida de cada um. E são implacáveis. Muitos dos que ouviram aquele velho relógio de parede morreram e ele, sacrificado pela modernidade, anda esquecido num antigo quarto de entulhos.
Penso em resgatá-lo, consertá-lo, colocá-lo para funcionar ainda que me lembre da irritação de acordar do cochilo tumular das quatro da tarde porque acordava muito cedo para ir à aula de manhã. Desisto porque resisto a revisitar minhas saudades. Não quero lembrar de nada. Sou um saudosista, um retraído nas minhas dores e no meu passado de onde jamais deveria ter saído ou mesmo entrado para desembocar nesta vida cheia de horas desmarcadas e finais infelizes.
Queria é que o tempo passasse ligeiro, mas quem sou eu para querer nada? Ou ter poder para querer? Ou querer poder? Se o tempo me fizesse nada, agradeceria silenciosamente, embora no coração palpitasse o toque profundo e intenso, do velho relógio que a parede da minha infância nunca esqueceu.








