"Chorei, não procurei esconder, todos viram..."
(Noite Ilustrada, clássico de Paulo Vanzolini)

SOBRE RELÓGIOS - 14.03.2008

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Queria ter a paciência dos relógios. Dos velhos relógios de parede. Daqueles que batiam dobrado, som tenso e grave como o dos taróis do filme o Homem Que Sabia Demais. Se eram duas da tarde, vinham quatro badaladas. À meia-noite, 24 bordoadas. Ficava bem no alto da parede da sala, relíquia dos anos 40, mimoso da minha avó e da minha tia-avó, que acordavam do sono no meio da novela das oito quando ele, acho que de propósito, sinalizava.

Gostaria de voltar ao tempo em que eu não sabia de nada. Mas os relógios, os de parede, se lenientes, não retrocedem. Marcam o passo cansado da vida de cada um. E são implacáveis. Muitos dos que ouviram aquele velho relógio de parede morreram e ele, sacrificado pela modernidade, anda esquecido num antigo quarto de entulhos.

Penso em resgatá-lo, consertá-lo, colocá-lo para funcionar ainda que me lembre da irritação de acordar do cochilo tumular das quatro da tarde porque acordava muito cedo para ir à aula de manhã. Desisto porque resisto a revisitar minhas saudades. Não quero lembrar de nada. Sou um saudosista, um retraído nas minhas dores e no meu passado de onde jamais deveria ter saído ou mesmo entrado para desembocar nesta vida cheia de horas desmarcadas e finais infelizes.

Queria é que o tempo passasse ligeiro, mas quem sou eu para querer nada? Ou ter poder para querer? Ou querer poder? Se o tempo me fizesse nada, agradeceria silenciosamente, embora no coração palpitasse o toque profundo e intenso, do velho relógio que a parede da minha infância nunca esqueceu.

ODIAI PELA VIDA ETERNA - 03.08.2007

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Nelson Rodrigues já desmoralizara o casamento nos anos 50, escrevendo a Vida como Ela É, coluna do Jornal Última Hora, de conteúdo saliente para época. O Anjo Pornográfico produziu um texto histórico e radical, de uma conturbada relação entre um pai puritano, ciumento e uma filha noiva e à beira do altar. Descobre-se no epílogo que a moça está grávida – e do próprio pai.

Nelson Rodrigues tinha uma mente de víbora para o sexo e uma narrativa fulminante de tão simples. Hoje, morreria de tédio com os relacionamentos de televisão. No tempo em que ele brilhava, escrevendo como um fantasma de ombros arqueados e cigarro ao canto da boca, as tramas tinham desfechos sangrentos, passionais, as moçoilas usavam luto quando o amado as trocava por uma “sirigaita”, os noivos cornos esfaqueavam as traidoras e bebiam o sangue dos próprios chifres.

Nelson Rodrigues definitivamente não assistiria televisão se vivo fosse e não um cadáver transformado em pó há 26 anos e alguns meses. Cadáver e morbidez coroavam os seus roteiros e os temperos de suas histórias. Era um homem sobrenatural. Hoje, tudo é banal e medíocre, na tela e na vida real.

Costumo almoçar pelas três da tarde, todos os dias, e quando não assisto, celular tocando agradavelmente, a uma resenha esportiva de tv por assinatura, saio ziguezagueando pelos canais. Por azar, parei dia desses na reprise da novela das duas da Globo. Haveria um casamento entre dois maus-caracteres: o noivo e a noiva. A mãe da moça, antes da cerimônia, aconselha a jovem a aceitar o relacionamento com o pulha, porque todos os casamentos, na sua filosofia de medeia, ao final terminam com duas pessoas guerreando entre quatro paredes. E se forem quatro paredes, que sejam na Vieira Souto e na cobertura, como garante o futuro marido da filha. A mãe-serpente, vivida pela linda Maitê Proença, é casada de faz-de-conta com uma bichona apaixonada(na novela) por uma moça subalterna.

Fui me interessando porque eu gosto de uma sacanagenzinha. Atrasei minha digestão só para ver o padre abençoar a dupla e autorizar o beijo nupcial: “Te odeio”, sussurra a sincera agora senhora. “Eu também, minha querida”, murmura o abjeto marido, suspeito de todo tipo de falcatrua empresarial.

Ainda bem que existem as colunas sociais, a antítese das telenovelas. Elas exibem um mundo totalmente diferente. Dá para se ver pelos sorrisos. E a gargalhada de Lúcifer.

INTERROGAÇÕES - 14.06.2007

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O que será uma vitória, caiada na noite, molhada de chuva, numa alma de prontidão? O que será um grito, explodindo peito, entranhas e sofrimento, num rasgo de luz cadente, madrugada se aproximando? O que será um segundo de delírio numa eternidade de esperança, que jamais será conseqüência?

Nada, porque a felicidade nunca terá interrogações. Mas o que será de uma noite em que destinos se cruzam, vivos, mortos, belezas e zumbis vagueiam por um teatro mambembe, até que se descortine um espetáculo de pura simplicidade? O que será de uma noite que termina em um berro?

O que será de todos, que sozinhos nunca, juntos incalculáveis, senão a irmã paciência da espera de um ato, trágico, patético ou antológico, benfazejos todos os momentos comandados pelos pobres?

O que será passear pela nuvem de uma consagração equilibrista, sem uma Elis Regina a cantá-la? O que será estar tateando por um espaço em que você enxerga sem ser visto, vê, sem poder sem enxergado?

O que será perguntar somente num tempo como este? O que pode ser imaginar todos os fantasmas amados ao seu lado quando os olhos estão fechados, como o corpo e –se- existir – o espírito?

O que será ser campeão como numa festa pá, sem cravos calientes? Sem tanto mar, para navegar? O que será ser só?

Eis a resposta.

CÃO PERDIDO - 27.05.2007

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Caro amigo Alex Medeiros: Uma conversa assim seria grega se o outro fosse um sujeito que jamais arrancou cabeça de dedo em peladas no meio da rua, meio-dia tão aprazível quanto um entardecer em Coimbra. Nós, peladeiros, testemunhamos várias vezes o desespero de um cachorro quando cai de um caminhão de mudança. É angustiante. Ele late em instinto de defesa, corre para um lado, para o outro, chora e uiva o som gutural dos suicidas.

Somos contemporâneos da mesma época de sonhos. Eu, mais novo, você, barbudo e companheiro disposto a tomar o mundo com um verso e uma estrela grudada no peito. O meu pai era o símbolo da luta. Posso fazer uma analogia entre ele e o cão perdido: o meu pai falava, berrava em cima de kombis, bradava às nuvens a injustiça social, a ditadura, uivava porque ninguém o ouvia.

Hoje, pouco mais velho aos 36 anos e a 10 meses de completar duas décadas de profissão, estou cansado. Não de corpo, mas de alma. Acabaram-se os gestos, Alex, os simples gestos que davam à vida um sol de um amanhecer .

Como era bom, Alex, conviver somente entre os pobres. Só entre eles. Porque entre eles a falsidade pode ser dita, mas quase nunca é praticada. Eles fazem solidariedade sem saber. No copo de açúcar emprestado, no decisivo pacote de feijão entregue na porta da casa do vizinho aflito. Na cota socialista para a compra da garrafa de cachaça.

Se eu disser que não gosto do que é bom, serei um hipócrita. Mas eu preciso entender se o bom mesmo é uma televisão de plasma gigante, um carro do ano, o dinheiro suficiente para um almoço chique. Será? Nunca vi ninguém ser enterrado com uma mansão dentro do caixão.

Meus velhos amigos estão longe do poder. Com eles, eu conto sempre. A eles, que cabem numa mão, posso destilar minhas frescuras existenciais e receber respostas grosseiras e precisas. Porque eles não querem nada de mim que não seja a companhia, a farra e o futebol. Estão lá, numa cortina do coração sempre aberta em momentos de turbulência.

Pegue os jovens de hoje, de chofre, e os pergunte o que significam: atitude, presença, companheirismo, decência, sentimento, verdade, altruísmo, afeto, recíproca. E faça o mesmo sobre dinheiro, carros, interesse, festas, cargos, e, sempre ele, o poder. Pergunte, por sarcasmo, o que é futilidade. É a vida deles, mas esses moços e moças que não valem Lupicínio, não sabem. Lupicínio Rodrigues eles haverão de pensar tratar-se de um novo ministro de Estado. E eles sabem o que é um ministro, boa vontade minha?

Esta alma afundada no desencanto se despede convidando-o para um almoço em que falaremos de futebol. Aliás, um assunto que devemos preservar para os que sabem. Porque é o único tema universal e capaz de tracejar alegria no espírito em penumbra.

Abração,

Rubens Lemos Filho

TODA MÃE É HEROÍNA - 09.05.2007

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Eu sou devedor da minha mãe. Sou muitas vezes impaciente com ela. Visito pouco a minha mãe. O meu álibi é a falta de tempo. Minha mãe me liga dia sim, dia não. Eu atendo. Muitas vezes não retorno. É um estresse a minha vida. Mas a minha mãe precisa ter um pouco mais de prioridade. Afinal de contas, sem ela, meu pai não teria me feito numa proveta inexistente em 1970.

Quando eu tinha um ano, foi nos braços dela que eu voltei do Chile quando caiu o Governo Salvador Allende, Palácio La Moñeda bombardeado pelas forças satânicas de Pinochet. Meu pai, exilado político, nos mandou de volta para o Brasil. No avião , agentes disfarçados da Repressão prenderam minha mãe na escala no Rio de Janeiro. Queriam notícias do meu pai, queriam que ela dedurasse o homem que amou em toda a sua vida e até depois de morto.

Fizeram tortura psicológica. Ameaçaram me tomar. “Seu filho vai ser educado na Febem”, disse um lambaio dos repressores da época. Minha mãe teve um gesto só das mães. Fechou-me em seu peito e berrou, grávida da minha irmã Yasmine. “A minha vida vocês podem tirar, mas o meu filho vocês não tiram”. Estou vivo até hoje.

Esta semana eu não fui ver uma grande amiga da minha mãe, Dona Francisquinha Dias Leão. Assistiam missa juntas quase diariamente. Eram duas carolas. Duas não, três, porque a minha avó de 87 anos ia com elas aqui e acolá. Dona Francisquinha morreu de uma queda. Com a partida dela, subiu minha admiração no ateísmo. Deus, tão bom, tirou uma mulher que o amava de uma queda. O filho dela, médico Marcos Leão, é gente da melhor qualidade. Não quero imaginar o domingo dele.

Voltando à minha mãe, que se chama Isolda, católica de ler a Bíblia ao contrário ou de cabeça para baixo, é um exemplo de sofrimento e luta. Me criou e aos meus irmãos com a maior dignidade e um sacrifício estóico . Nenhum saiu para mau caráter. Todas as mães são heroínas. Só lamento o amor duplicado que ela tem pelos meus filhos e sobrinhos. Besteira minha. Aliás, é ciúme.

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