
Se o coadjuvante é a superioridade secundária,o ator Morgan Freeman é o seu retrato. Não existe um filme em que ele não supere o astro principal. Assim foi em Robin Hood, Os Imperdoáveis, Um Sonho de Liberdade e Menina de Ouro.
Ele brilha com o velho requinte também em Antes de Partir, contracenando com Jack Nicholson. São dois cancerosos terminais. Freeman, o pobre e Nicholson, menos histriônico como sempre, o milionário.
Em sua lista de desejos finais de vida, Freeman inclui o direito de chorar de tanto rir.No cinema, o homem de sorriso de esfinge, nascido em Memphis, é a magistral suavidade.
No futebol, para mim - e é o que basta - , ela sempre se chamou Geovani Silva, um baixinho de Vitória(ES). Geovani do Vasco.
Devo a Geovani as minhas melhores lembranças de jogadas de efeito, lançamentos perfeitos, dribles sutis, chutes curvilíneos, postura imperial na grande sala do meio-campo.
Geovani vem da cota dos estilistas. Nasceu na década errada. Tinha que ter jogado até os anos 70, quando a bola era um objeto de desejo e luxúria de quem sabia tratá-la, não uma máquina disputada por andróides. Teria se entendido bem com Didi, Zizinho, Gerson, Ademir da Guia. Geovani foi um deles.
O Vasco naqueles anos 80 era Vasco. Geovani desfilava como um Morgan Freeman criativo armando gols de Roberto Dinamite, Romário, Cláudio Adão, Edmundo, Bebeto e Sorato, as vozes das suas composições e partituras.
Um lance que nunca vou esquecer, numa tarde de agosto. Em 1984, contra o Flamengo, um duelo equilibrado. Ele regendo o Vasco, Andrade(sem Adílio), cadenciando o rubro-negro. O goleiro urubulino chamava-se Ubaldo Matildo Fillol, argentino campeão do mundo em 1978 e uma arrogância Monumental de Nuñez.
Cruzamento sobre a área flamenguista, prontamente rebatido pela zaga. Geovani mata a bola na coxa, no território da meia-direita. Está de cabeça erguida. Vê com os olhos de ilusionista, Fillol adiantado.
Toca \"de chapa\", parte interna do pé direito. Vasco 1x0. Zagalo, o pai da retranca brasileira e então técnico do Fla, engole a derrota.Eu, vibrando com a intensidade dos moleques. Aquele foi o meu presente de 14 anos com 15 dias de antecedência.
Geovani, o melhor de uma geração que consagrou Jorginho, Dunga e Bebeto, reapareceu para mim em Natal, jogando pelo ABC em 96. A categoria que os idiotas chamavam de lentidão. Tenho, orgulhoso, uma foto dele com o meu filho, Caio, que tinha 3 anos e só não foi batizado Geovani por implicância materna.
Em 2008, fiz o caminho inverso de Morgan Freeman em Antes de Partir. Revi Geovani numa matéria de 10 minutos do Esporte Espetacular. Ele de muletas, recuperando-se de uma doença - polineuropatia, que ataca as articulações e que o deixou de cadeira de rodas mais de um ano. Lembro-me de haver chorado de soluçar tanto só quando o meu pai morreu, na verdade uns três dias depois, quando cai a ficha.
Geovani lutando, agora pelo direito de andar direito.
Para alguns, Geovani tinha tudo para ter sido.
Para mim, ele sempre será.
VASCO 1 X 0 FLAMENGO
CAMPEONATO CARIOCA(1o TURNO)
05/08/1984
Maracanã(RJ)
Juiz: Wilson Carlos dos Santos
Público: 49.404
Gol: Geovani aos 33 minutos do 2o tempo.
Vasco: Roberto Costa; Edevaldo, Daniel Gonzalez(falecido), Nenê e Airton; Pires, Geovani e Mário; Mauricinho, Roberto e Marquinho. Técnico: Edu Antunes.
Flamengo: Fillol; Jorginho, Leandro, Mozer e Adalberto; Andrade, Élder e Tita; Bebeto, Nunes e João Paulo(Edmar). Técnico: Zagalo.
Este texto faz parte do livro A Cabeça do Futebol, de Carlos Magno Araújo, Gustavo de Castro e Samarole Lima, lançado dia 26/6 em Natal. É uma coletânea de escritos sobre futebol. Custa R$ 25,00 na Siciliano. Quanto a Geovani, é subsecretário de Esportes do Espírito Santo e está em franca recuperação.