"Quem perdoa o mal, é pior."(eu).

MUNDO BIZARRO - 25.01.2012

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Sou uma anomalia. Descobri na semana passada, quando saí de casa para uma reunião social, que frequento com a lealdade das perfídias. Nenhuma. Tenho poucos amigos e a eles resumo minha convivência fora do meu território, da minha maravilhosa clausura familiar.

Começaram, na mesa, após a primeira rodada de bebida, a falar sobre uma grávida de quadrigêmeos. Abriram programas de internet em telefones celulares e me mostraram a jovem de 25 anos, que exibia a protuberância às telas de TV e aos fotógrafos.

Tanto ou mais estranha que aquela barriga, foi a reação de todos ao saber do meu inteiro desconhecimento sobre a existência da mulher e da sua suposta prole. Limite-me a dizer que, pelo exagero, a barriga dela parecia carregar um hipopótamo, menos quatro meninos.

Alguns riram, outros me censuraram. É fato que a franqueza é andarilha da estrada da censura. Sempre digo o que me vem na cabeça e expresso minha opinião seja ou não para agradar. Acho melhor do que conspirar, cochichar, trair e tramar.

Eis que se descobre: a gravidez era falsa e o marido não sabia que, por baixo dos vestidos da digníssima, havia apenas pedaços de tecido e borracha. O pai que não será chorou como o bebê que deveria ter vindo.

O sensacionalismo que avacalha a programação televisiva explicou sem o talento nato para as desgraças de um velho Gil Gomes. "O marido não a tocava. O truque era o seguinte: Ela dizia que estava com estrias e ele compreendeu." Sem malícia alguma, suponho que uma amante na história evitaria o choro descomunal.

Como toda história brasileira acaba no deixa para lá, o advogado da falsa grávida vai alegar problemas mentais. E dizer que ela queria apenas exercitar uma fantasia e seus 15 minutos de fama. Até os carrascos diziam veja pelo lado bom, quando lascavam guilhotinas em cegos criminosos ou rebeldes.

Espero que o pai chorão pense na economia que fará sem quatro filhos para criar no Brasil sexta economia do mundo na tese marqueteira do Governo Federal. O Brasil é a sexta economia do mundo e a cada dia mais mendigos me pedem trocados. O pai estará livre de comprar fraldas, leite, vitaminas. Quando parar de chorar, pode também trocar de mulher.

E o meu analfabetismo sobre o bizarro me impede de comentar uma suposta violação sexual no reality show que ensina noções modernas de mau-caratismo e cobiça. Com milhões de desocupados assistindo.

O tema do BBB que para mim é Bando de Babacas do Bial, também foi assunto na tal mesa em que fiquei escanteado igual a lateral-direito quando levava um drible humilhante do ponta-esquerda Edu, do Santos. Limitei-me a dizer que o próprio BBB é um estupro televisivo. Fui recriminado. É a minha sina.

Na dita mesa, discutiu-se o naufrágio do navio italiano. Esse eu acompanhei muito seguro com o controle remoto à mão. A fuga do comandante consagrou a velha máxima da covardia, de que quando dá água, os ratos pulam primeiro.

Na dita mesa, falou-se, logo depois de comentada a tragédia, num cruzeiro pelos mares gregos. De água, gosto morna e parada, tipo Praia do Forte ou Camurupim. Cruzeiro para mim só o de Tostão e Dirceu Lopes.

O Mar Egeu me lembra os temíveis Canhões de Navarone, que Gregory Peck e David Niven destruíram humilhando a retaguarda nazista. O assunto foi afogado, feito o tombado Costa Concórdia.

Já em casa, me atualizando no computador, li que um saudita está tentando vender um filho por 20 milhões de dólares no facebook, por estar vivendo na pobreza. O saudita tem dois filhos, um menino e uma menina. Foi sincero e disse que gosta da menina e botou o menino para negócio.

A vida de um filho é incalculável. O saudita mereceria mesmo era uma surra de chicote em praça pública. Mas é o mundo atual, tão feio, materialista, que torna convencional uma notícia desse tipo. Nunca me acostumo com canalhice.

Entrei noutro site e observei que um cão farejador da Flórida pode ser julgado por descobrir maconha sem mandado de busca. O nariz sensível de Franky, oito anos, sete deles dedicados ao combate ao tráfico de drogas, é notícia internacional. Gostaria de assistir ao seu interrogatório. O juiz perguntando e ele latindo.

E para terminar, uma delegada de polícia no Rio de Janeiro foi presa numa blitz da Lei Seca. Fez o teste do bafômetro e a PM constatou que a doutora estava triscada além da conta. Meteu a unha no pescoço de um tenente. Se estava ou não embriagada, a justiça vai resolver.

O danado - e normal pelo que tenho visto, é que a delegada, autoridade que deve cumprir a e lei para dar exemplo aos outros, estava com habilitação vencida e licenciamento atrasado desde 2009. É o mundo bizarro. Eu é que já devo ter morrido e esqueceram de me avisar.

FIGURINHAS - 23.01.2012

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O São Paulo vai resgatar sua história lançando um novo álbum de figurinhas. Serão 186 cromos e as biografias dos seus grandes ídolos, de Sastre a Raí, sem contar o formoso Kaká. Taí, uma bela ação de marketing. O objetivo é segurar a geração dos 10 aos 30 anos.

Pesquisas indicam que o tricolor perdeu força na reverência ao seu passado em função das conquistas dos tempos recentes. E um álbum de figurinhas encanta. É uma enciclopédia em forma de brinquedo encantado.

O São Paulo teve ótimos times e excepcionais jogadores no período distante do século que se foi. Lá, Zizinho, o antecessor e ídolo de Pelé, foi campeão em 1957, aos 36 anos e marcando 24 gols. Zizinho era imitado pelo Rei, imagine o quanto jogava. Gerson também copiava seus lançamentos.

Zizinho - e o álbum de figurinhas do São Paulo vai dizer, foi ao mesmo tempo armador e ponta-de-lança, organizando o jogo e partindo rumo à defesa oponente com a sutileza dos dribles e a capacidade de ótimo finalizador.

O álbum do São Paulo trará detalhes da retomada tricolor, que começou após o sacrifício da construção do Morumbi. Durante o tempo em que construiu o seu estádio, o São Paulo ganhou raros títulos. A década de 1960 lhe foi cruel. Quando não era o Santos de Pelé, era o Palmeiras de Ademir da Guia.

Tudo começou a mudar com chegada de Gerson e Pedro Rocha, um dos maiores do futebol uruguaio para formar o meio-campo com o volante e figurante Edson e o atacante Toninho Guerreiro, ex-tabeleiro de Pelé no Santos.

O São Paulo formou um ataque com Terto, Toninho e Paraná, ponta-esquerda ligeiro que disputou a Copa de 1966. Paraná não era dos dribladores. Dava a pancada na bola e corria, batendo o lateral na velocidade. E batia sem dó quando apanhava. Temido por isso.

O lançamento do álbum tricolor será em 27 deste mês e vou colecionar, repetindo a diversão de minha infância. É uma delícia comprar o pacote de figurinhas e esperar pelas mais difíceis. Fascínio que só os apaixonados pela bola sabem do que se trata.

No meu tempo, demorei para preencher o Vasco da Gama. Roberto Dinamite, a figurinha mais difícil. Mazarópi, Orlando Lelé, Abel, Geraldo e Marco Antônio; Zé Mário, Zanata e Dirceu; Wilsinho, Roberto Dinamite e Ramón, mais alguns reservas, entre eles Zé Luiz, goleiro, ex-América e ABC e hoje morando em Natal como policial civil, formavam o grupo campeão carioca de 1977.

Democráticos os velhos álbuns. Os campeonatos brasileiros chegavam a superar 90 times, como em 1979(foram 94) e assim abria-se espaço para os jogadores de nossa terra. O ABC com Danilo Menenes, Hélio Show, Draílton e Noé Macunaíma. O América de Jangada, Pedrada, Alberi, Hélcio e Ivanildo Arara.

Que todos os clubes sigam a ideia do São Paulo e façam seus álbuns. Para a garotada saber que para surgir um Luís Fabiano, a semente foi plantada por Canhoteiro, o Garrincha da canhota, grande driblador e brasileiro, que deixou de ir a duas copas pela sorte incorporada a Zagallo.

Se as meninas contavam tudo aos seus diários, narrando fragmentos de namoros que nem existiam, nossos confidentes eram os álbuns de figurinhas, pelos quais conversávamos, em monólogo, com nossos ídolos tão distantes.

TIRO AO ÁLVARO - 20.01.2012

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Foi pouco tempo de convivência. Uma série de encontros em cumplicidade deliciosa. Elis Regina e Adoniran Barbosa passeando pelas ruas boêmias cheias de casas antigas e cantinas do Bixiga, bairro sambista de Velha Guarda de São Paulo.Se conheceram em 1965, Elis entrevistando Adoniran na TV Excelsior. Voltaram a se ver, para grudar de exuberância musical, depois que ela gravou Saudosa Maloca em 1978.

Ontem, jornais e portais, blogues e fenomenais dedicaram seus textos e ensaios aos 30 anos da morte da pimentinha de voz cristalina. Elis Regina se foi aos 36 anos, em 1982, encantada como quando cantava Fascinação, uma música linda e triste, dessas de fazer menino distante de algum parente querido chorar de saudade.

Mesmo que a letra de Fascinação não combine com saudade fraterna, a melodia é de descompostura emocional. Motivo: a voz de Elis Regina, demarcação impossível de ser calculada, da distância, da tristeza, da vontade de se estar perto, do amor, essa palavra tão arquivada no memorial dos sentimentos.

Na morte de Elis, todos ficamos de plantão em frente à velha Telefunken, cujo seletor de canais parecia orelha de moleque danado, adulto apertava e torcia para que pudesse regular bem direitinho.

Sintonizados na Globo, papai molhando a bigodeira nicotinada de lágrimas, olhávamos o rostinho de Elis no caixão. Há mortos que dormem, outros franzem o cenho de impaciência e vontade de encerrar o velório e descer à cova. A expressão de Elis era de um sono de paz.

O que se ouviu de Elis Regina pelos dias e meses seguintes daquele 1982 com o agravante de ter sido ano eleitoral com o dono da casa candidato a governador(teve 3 mil votos), foi equivalente ao tocar de hinos em igrejas.

Os discos de vinil, os velhos bolachões esparramados pelo sofá, entendidos de MPB discutindo a entonação da voz cada vez mais bela de Elis Regina, sua partida precoce e a certeza inexorável de que a melhor intérprete brasileira "de qualidade" interplanetária nunca seria substituída.

A melhor parte, para mim, se passava quando a vitrola punha Elis e Adoniran Barbosa para cantar juntos. Incrível como aquele velhinho de voz rouca e vestido de branco me impressionou. Paixão à primeira audição.

A faixa "Tiro ao Álvaro" me aninava em caráter especial. Uma poesia de simplicidade e eu sou adepto ortodoxo do simples, do sem frescuras. Palavras grafadas na letra e cantadas do jeito de corar erudito empolado: Frechada(Flechada), Táubua(Tábua), Automóver(Automóvel) , Revórver(Revólver) e o próprio Álvaro que não passava de um alvo, o peito condenado e sofrido do personagem da canção.

Tinha na época do colegial um professor enjoadíssimo(termo encontrado para não responder por homofobia) de Português que nos humilhava com saber e petulância ao mínimo erro. Um colega paupérrimo em concordância era sua vítima predileta.

Quando o menino brandia um catastrófico "O pessoal fizeram uma festa", o mestre magrinho e de ralo cavanhaque, vinha com o lápis que sempre mantinha preso à orelha e o chamava de analfabeto.

Nunca entendi um educador, pago para semear conhecimento, espraiar mau tratamento e destilar tanto horror à humanidade. "Você é um burro incorrigível". O menino, para desespero do mestre amargo, ou amargurado, apenas ria um sorriso lesado, de consentimento e cinismo.

Certo dia, venci minha inflexível timidez e cantei Tiro ao Álvaro, caprichando nas lindas agressões ao idioma. Sentava na parte de trás da sala, como todo sonso, para colar com mais tranquilidade, olhar melhor as pernas das meninas, discutir sobre ABC e América. Continuei cantando Tiro ao Álvaro.

O professor magriço virou-se numa eletricidade que invejaria Thomas Edison. Enérgico também foi seu tom fanhoso: "Rubens Manoel! pare de cantar errado, essa música é um desserviço aos jovens, quem se dá o trabalho de ouvir alguém cantar táubua? É um absurdo!".

Foi uma das primeiras expulsões de sala de aula de minha vida. Claro, entre o samba de Elis e Adoniram e o insuportável bedel cheio de arrogância, escolhi a dupla cadenciada, charmosa, intensa de jovialidade. Tão entrosada que Adoniran morreu no mesmo ano, em solidariedade transcendental.

Pois tive que sair da aula e com orgulho. Justifiquei meu canto desafinado: "É, professor. Realmente a música é ruim demais. Tão ruim que vende milhões de discos, faz muita gente feliz e vive sendo tocada no Chacrinha e no Fantástico. Bom é o senhor que não toca nem pandeiro e ganha dinheiro dando esbregue em menino sambudo."

Ele exigiu a minha expulsão do colégio onde estava desde quase bebê de colo. Chamaram meus pais. Rubão quis resolver na calçada, mas o professor desapareceu. A diretora, religiosa e rigorosa Irmã Fátima, pediu apenas que eu não incomodasse o rapaz.

O furioso terminou o ano letivo(me tirando décimos nas notas, de vingancinha) e tomou Doril ou destino, sumiu, para felicidade geral da malta. Irmã Fátima, creio, também apreciava Tiro ao Álvaro. Elis e Adoniran eram de fé.

AMIGAS DE VERDADE - 18.01.2012

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Chamou a amiga bem cedo. Suas (belas) casas eram fronteiriças. Veraneio na plenitude no litoral sul do Rio Grande do Norte. Alpendres cheios, parrachos lotados de lanchas demarcando a soberba, jovens parrudos e potentados na procissão idiota dos paredões de som. E a novidade benéfica: polícia prendendo e multando cachaceiros ao volante.

Ela cumpriu seu ritual. Muita maquiagem, óculos comprados em Paris, biquíni sensual para uma balzaquiana, batom, sandália de salto alto, uma canga havaiana cobrindo o corpo bem torneado pela melhor academia de ginástica da cidade.

Para irradiar o apelo sexy, um bronzeado marrom e brilhante, retocado por cremes caríssimos, trazidos da última passagem pelo Corte Inglês, em Madrid. A pele morena recebia cuidados sumários, rigorosos e inadiáveis.

A cada caminhada matinal, o orgulho pelos olhares apetitosos dos homens de sua geração, dos velhos audaciosos e, melhor para o ego, dos atléticos por volta dos 25, 30 anos. “Podem nada ter na cabeça, mas no corpo, há o que é preciso além de uma imaturidade sexual que uma mulher quente aprimora com artimanhas e tempero.”

Precisava conversar com a amiga. Bem, amiga por assim dizer. Entre as mulheres do Jet set que freqüentavam, há competidoras, atletas da vaidade que se observam da cabeça aos pés, do vestido à calça justa, examinando a peça, a combinação com quem veste e especulando o preço, atestado de prosperidade.

Chamava-a de amiga como todas as do seu círculo de sinceridade absoluta como a certeza de uma vitória do São Cristóvão sobre o Flamengo. Separando as sílabas: A-mi-ga, estratagema denunciador da falsidade do sentimento. Com ela e outras cinco, formavam um grupo de vigilância constante, uma sobre a outra.

Discutiam a qualidade do espumante servido no almoço das seis da tarde na casa de uma delas, lotada de festeiros legítimos. O vestido da fulana que rasgou em pleno jantar chique. O uísque tido escocês e que não passava de uma embalagem cheia de conteúdo nacional do mais baixo nível.

O passado emergente havia sido apagado como num quadro-negro. Jamais revelava ter começado em escola pública, filha de um casal de funcionários do Estado. Seu orgulho: a vocação precoce para a independência. Meteu-se cedo nas boates dos ricos e dali não poupou esforços literalmente físicos para fisgar seu homem.

Nem foi difícil. Ele, um pouco mais velho, tímido e de pele branca como uma bandeira da marchinha cantada por Dalva de Oliveira , não tinha namorada. Sozinho ele estava num churrasco. Vários casais. Com sua experiência de astuta, esbarrou no rapaz com algumas doses de uísque, fingiu surpresa, conversaram longamente.

A ele, contou, num teatro profissional: era emancipada, universitária(terminara o colegial), gostava de festa, de dançar e, por incrível que parecesse, de rapazes tímidos. Na mesma noite, deu-lhe uma lição de cama e o casamento aconteceu um mês depois, bem noticiado pelas colunas sociais menos preocupadas com as evidências.

Viviam muito bem. Dinheiro e viagens sobravam, os filhos adolescentes ingressavam em universidades particulares, mais um assunto para as rodas com a sua turma: “Pago mil e quinhentos reais de mensalidade. A-mi-ga, eu pago dois mil”.

Ela sempre pagava mais sem tirar da bolsa Louis Vouitton, um níquel sequer para custear um saco de pão. Tudo com o mecenas que ainda usava ceroulas, fato mantido em segredo.

Mas naquela manhã, do veraneio na praia em que caprichara no visual, decidira ser verdadeira com a amiga. Nesse meio, verdade é uma botija. Todo mundo sabe que existe em lenda, mas pouco se vê. A outra apareceu em vestimenta similar.

Caminharam por um trecho chamado Rio Doce, que estava seco e gostoso de ser pisado, formava ilhotas e pequenos poços, onde rolavam crianças com baldes cheios de areia sob olhares anestesiados de entediadas babás.

O lugar escolhido para a confidência foi estratégico. Por entre as pedras próximas a um trapiche por onde turistas saem de barco passeando e de boca aberta, mar adentro. Um dia, será visto um sargaço voador entrando na boca de um desses visitantes.

“O que é que há?”, inquietou-se a convidada. “Estou deixando o meu marido. Soube que ele faliu. Não tenho condições de continuar vivendo com um homem falido.” A a-mi-ga, segurando o chapéu panamenho ao vento: “Coincidência, muito bom conversar com você agora. O meu marido anda estranho, somos quase inimigos íntimos.”

Então se deu o desfecho. “A-mi-ga. Ao saber da falência do meu marido, já estava dormindo com o seu. Ele tem uma Zorba vinho, só para provar o que digo. Tenho que ser honesta com você”. O tabefe no olho a fez desmaiar. Um pescador a acordou. Nenhum roxo que um bom rouge não disfarçasse.

MONARCA VERMELHO - 17.01.2012

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A impressão que ele sempre me passou, do longe dos meus olhos e do desejo de vê-lo com a camisa igual à minha, foi a de um monarca da paz em campo. Seu jogo desafiava a aparência de lentidão com a classe temperando o arranque felino das panteras.

Mas ele transmitia paz. Nos seus toques, dribles, cobranças de falta. Na batida de bola de "chapa", a parte interna do pé, charme que a natureza reservou para os privilegiados da bola. Moura, do América de Natal, , conseguiu aliar ao futebol seu próprio jeito de ser.

Em 1996, o ABC contava com um campeonato ganho por antecipação, o suicídio em verbete do futebol. Era o franco favorito e caminhava solene para o tetracampeonato. Até a chegada de Moura, do goleiro Jorge Pinheiro, do volante Washington Lobo e do centroavante Wanderley.

Moura estava no Sport, sem a atenção que lhe era indispensável por títulos e clássicos vencidos no calor humano escaldante da Ilha do Retiro, na aristocracia em pequeno espaço geográfico dos Aflitos, território do Náutico e na democracia cativante do Arruda, gigante do povo humilde do Santa Cruz.

O América trouxe Moura. E a energia de sua presença com a camisa 10 mudou o rumo da prosa escrita e o seu final. Moura, que surgiu em Brasília, de atacante, descobriu-se em Natal um meia-atacante e armador de domínio sobre cada partida.

Moura, que o narrador Hélio Câmara batizou, com precisa paixão de O Paquistanês, ostenta, no semblante, aspectos de profeta árabe. O seu alcorão sempre foi a doutrina da sutileza, a capacidade de eletrizar um jogo sem perder a elegância.

Enganaram-se os que incluíram no repertório de Moura a frieza. Ele jamais foi um ser artificial. Craque lida com emoção popular e Moura, pairando pela meia-cancha, surgindo por trás do beque e dando o bote no goleiro, traduzia o sentimento literal da beleza de um jogo.

Moura vestiu a camisa do América e saiu pelo Machadão. E acabou o sossego alvinegro naquele 1996, com o arrogante Estevam Soares tramando esquemas que o monarca vermelho destruía numa ginga de corpo sobre o bom e falecido volante Ivanildo ou sobre o paranaense Marquinhos Ferreira, correto e também vencido com lealdade.

O ABC perdeu o campeonato de 1996. Moura bateu uma falta de curva, no primeiro jogo das finais. Lembro que estava na arquibancada olhando o lance em diagonal, o Frasqueirão era do lado que dá para a avenida Romualdo Galvão e um pouco para a BR-101.

Moura ajeitou a bola com uma calma tibetana. O ABC tinha de quarto-zagueiro Romildo, um dos maiores campeões do Rio Grande do Norte, capitão de raça e fibra. Romildo e o seu companheiro Mozer tentaram atrapalhar a cobrança, apontando ao juiz o local que consideravam certo, claro, mais para trás.

Moura, mãos na cintura, parado, esperando a encenação passar e as duas torcidas berrando. A do ABC, aos palavrões, tentando enervá-lo. A do América, ansiosa pelo desenlace em vibração.

Depois de dois minutos de espera, Moura chutou. Ou arremessou de pé direito. A bola passou por fora da barreira e o goleiro Oscar pulou para o canto, inutilmente. A bola, sutil como mandou seu regente, tocou de mansinho as redes e Moura comemorou como se estivesse num jantar no Copacabana Palace, vestido de smoking, categoria até no levantar das mãos.

Por obra e talento de Moura, o monarca vermelho, o ABC não foi octacampeão potiguar, de 1993 a 2000. Moura tirou a cereja do bolo. Sóbrio, tocando a bola sem irritar, olhar de bússola conduzindo o time inteiro.

Moura ficou em Natal e liderou o acesso do América à Série A. Em 1997, os grandes do Brasil vieram a Natal. Moura permaneceu titular e, em torno de sua virtuose, o América fez uma campanha bonita, perdendo em casa apenas para o São Paulo, quando já estava longe do rebaixamento.

Um dos lances mais belos, vistos por mim no destruído Machadão, foi o primeiro gol contra o Cruzeiro, aos dois minutos de partida. Estava na tal arquibancada em diagonal, desta vez o América atacando rumo ao gol do placar. Triangulação aos dois minutos de partida, Moura bate de curva, com a "chapa"direita, bola dormindo no ângulo. O goleiro era Dida, titular da seleção brasileira na Olimpíada de 1996 e na Copa do Mundo de 2006.

Em 1999, sacaram Moura do time titular. Ele respondeu comandando um 3x0 devastador sobre o ABC, numa noite de quarta-feira, quando não comemorou nenhum gol, ferido nos brios. Foi o ano em que o América vendeu a Pousada do Atleta para contratar 20 times inteiros e perder o título no gol contra do zagueiro Marcelo Fernandes.

Nenhum texto descreve melhor Carlos Moura, de futebol dourado como o sobrenome, do que a frase de um recifense, especialista em cobranças de falta com a camisa do Vasco da Gama.

Repórteres perguntaram a Juninho Pernambucano, em sua fase áurea, como ele conseguia bater tão bem na bola. " Aprendi vendo Moura, no Sport, bater falta. Aprendi com Moura". É dos grandes reis saber ensinar para que a sua arte seja herdada e encenada pelos palácios tracejados em quatro linhas. Moura, o eterno monarca vermelho.

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