" Quando eu entrei na mata, bebi água na cascata."(Aniversário do Tarzan, Originais do Samba)

O SIGNO DA BELEZA - 30.06.2009

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Bendita insônia que me trouxe Bruna Lombardi. E as batatas das suas pernas.Panturrilhas torneadas, polidas, sem imitações popozudas. Santo Canal Brasil. Bruna Lombardi está a meio metro de distância dos meus olhos, na madrugada que se insinua indormida e cai num relaxamento sensual.

Bruna Lombardi é uma astróloga e apresenta um programa de rádio para neuróticos. Suas cartas são os olhos grandes, penetrantes, coloridos. Linda e amadurecida. Ancas, tem ancas a Bruna Lombardi. Ancas diferenciadas. Possantes, dançarinas, deslumbrantes.

Contracena com Malvino Salvador, um desses novos atores que parecem viver sem camisa. Toda a força e a inteligência concentram-se no tórax. Só um ganhador de loteria para alugar um apartamento no decadente centro de São Paulo, sem o charme do Bexiga de Adoniran Barbosa e encontrar Bruna Lombardi como vizinha.

Uma vizinha que serve docinhos e café com mel, mel que salta da sua boca com doçura embriagadora.

Rever Bruna Lombardi é reviver incursões impublicáveis aos banheiros da minha fase de colegial. Ela continua perfeita, não mudou nada, faz tudo certo, até uma cena de furor em cima de uma pia.

Até na pia Bruna Lombardi é superior.

Porque é na pia onde o amor vira sexo bruto, atributo de trapezista.

Impensável acrobacia.

ABC E SE SOMENTE SE - 27.06.2009

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Rotulado pelo poeta e fotógrafo Giovanni Sérgio como um escritor de futebol, jurei esnobar o tema que toma conta do coração de 200 milhões de homens e mulheres do Brasil.

Talento nas lentes de precisão e sensibilidade, Giovanni Sérgio, uma classe de Falcão na Roma, parece detestar onze contra onze.

Nesta noite, castigado por mais uma derrota do ABC, minha vida materializada em preto, branco e paixão, time que quer dizer a minha cidade, resolvi desabafar, arregaçar, atirar sem um 7.62 à mão.

Ridicularizado, o ABC perdeu para o Atlético(GO) por 2 x 0. Os homens fantasiados com o uniforme alvinegro, bem poderiam ganhar um extra se algum circo estivesse aberto em Goiânia. O circo, os cantores sertanejos e o ABC de um futebol de envergonhar o mais polido caipira.

Foi assim. Tudo na vida termina em se.

Se o conformismo tomar conta de você, tenha certeza: Acabou a alegria e com ela, a vida.

Se uma estatística ou um teorema justificarem o fracasso, saiba: Sua alma é um molambo.

Se o seu time perder uma, duas, três, cinco vezes, e você ainda assim considerar normal, peça auxílio médico: Você morreu e não sabe.

Se o seu time for o ABC e ainda nas esperanças que renascem dos absurdos, você acreditar que pode haver uma mudança, vá à UTI mais próxima ou a um manicômio: Se cardiopata, menos, se louco, triste de sua família.

Se depois de um sábado perdido, você não conseguir lembrar o nome de nenhum jogador do ABC, o boletim médico dirá que você é um ser humano.

Se você concorda que o time é uma piada, ninguém joga nada e se jogasse, o técnico mostraria o que se faz com uma bola, saiba que uma enfermaria o espera.

Se você aceita, medicado, que o ABC de hoje é o pior da história e que o Faz-Me-Rir de 75 é um colosso, acaba de receber alta.

Se você duvida que o ABC, sua razão de ser, vai cair de verdade, desligue a TV, durma sobre as memórias e as eternidades.

Se você acredita que o ABC é tudo certo, e que eu, sou o Raul Seixas(de tanga) do seu fim-de-semana, passe na feira e engula vinte quilos de banana(de dinamite).

Se você acha que é preciso ter paciência.
Esqueça o futebol, faça – ainda que por correspondência- um curso de ciências.

Marco Aurélio, Paulo Musse ou Gaúcho disputarão a entrega do diploma.

Se você tem medo de um diretor, se louco verificado, engula um carburador.

Se nada adiantar, você vai enfumaçar.


ELE SEMPRE SERÁ - 27.06.2009

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Se o coadjuvante é a superioridade secundária,o ator Morgan Freeman é o seu retrato. Não existe um filme em que ele não supere o astro principal. Assim foi em Robin Hood, Os Imperdoáveis, Um Sonho de Liberdade e Menina de Ouro.

Ele brilha com o velho requinte também em Antes de Partir, contracenando com Jack Nicholson. São dois cancerosos terminais. Freeman, o pobre e Nicholson, menos histriônico como sempre, o milionário.

Em sua lista de desejos finais de vida, Freeman inclui o direito de chorar de tanto rir.No cinema, o homem de sorriso de esfinge, nascido em Memphis, é a magistral suavidade.

No futebol, para mim - e é o que basta - , ela sempre se chamou Geovani Silva, um baixinho de Vitória(ES). Geovani do Vasco.

Devo a Geovani as minhas melhores lembranças de jogadas de efeito, lançamentos perfeitos, dribles sutis, chutes curvilíneos, postura imperial na grande sala do meio-campo.

Geovani vem da cota dos estilistas. Nasceu na década errada. Tinha que ter jogado até os anos 70, quando a bola era um objeto de desejo e luxúria de quem sabia tratá-la, não uma máquina disputada por andróides. Teria se entendido bem com Didi, Zizinho, Gerson, Ademir da Guia. Geovani foi um deles.

O Vasco naqueles anos 80 era Vasco. Geovani desfilava como um Morgan Freeman criativo armando gols de Roberto Dinamite, Romário, Cláudio Adão, Edmundo, Bebeto e Sorato, as vozes das suas composições e partituras.

Um lance que nunca vou esquecer, numa tarde de agosto. Em 1984, contra o Flamengo, um duelo equilibrado. Ele regendo o Vasco, Andrade(sem Adílio), cadenciando o rubro-negro. O goleiro urubulino chamava-se Ubaldo Matildo Fillol, argentino campeão do mundo em 1978 e uma arrogância Monumental de Nuñez.

Cruzamento sobre a área flamenguista, prontamente rebatido pela zaga. Geovani mata a bola na coxa, no território da meia-direita. Está de cabeça erguida. Vê com os olhos de ilusionista, Fillol adiantado.

Toca \"de chapa\", parte interna do pé direito. Vasco 1x0. Zagalo, o pai da retranca brasileira e então técnico do Fla, engole a derrota.Eu, vibrando com a intensidade dos moleques. Aquele foi o meu presente de 14 anos com 15 dias de antecedência.

Geovani, o melhor de uma geração que consagrou Jorginho, Dunga e Bebeto, reapareceu para mim em Natal, jogando pelo ABC em 96. A categoria que os idiotas chamavam de lentidão. Tenho, orgulhoso, uma foto dele com o meu filho, Caio, que tinha 3 anos e só não foi batizado Geovani por implicância materna.

Em 2008, fiz o caminho inverso de Morgan Freeman em Antes de Partir. Revi Geovani numa matéria de 10 minutos do Esporte Espetacular. Ele de muletas, recuperando-se de uma doença - polineuropatia, que ataca as articulações e que o deixou de cadeira de rodas mais de um ano. Lembro-me de haver chorado de soluçar tanto só quando o meu pai morreu, na verdade uns três dias depois, quando cai a ficha.

Geovani lutando, agora pelo direito de andar direito.

Para alguns, Geovani tinha tudo para ter sido.
Para mim, ele sempre será.

VASCO 1 X 0 FLAMENGO
CAMPEONATO CARIOCA(1o TURNO)
05/08/1984
Maracanã(RJ)
Juiz: Wilson Carlos dos Santos
Público: 49.404
Gol: Geovani aos 33 minutos do 2o tempo.
Vasco: Roberto Costa; Edevaldo, Daniel Gonzalez(falecido), Nenê e Airton; Pires, Geovani e Mário; Mauricinho, Roberto e Marquinho. Técnico: Edu Antunes.
Flamengo: Fillol; Jorginho, Leandro, Mozer e Adalberto; Andrade, Élder e Tita; Bebeto, Nunes e João Paulo(Edmar). Técnico: Zagalo.


Este texto faz parte do livro A Cabeça do Futebol, de Carlos Magno Araújo, Gustavo de Castro e Samarole Lima, lançado dia 26/6 em Natal. É uma coletânea de escritos sobre futebol. Custa R$ 25,00 na Siciliano. Quanto a Geovani, é subsecretário de Esportes do Espírito Santo e está em franca recuperação.

MICHAEL JEFERSON - 26.06.2009

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Zezinho ajudava nas tarefas braçais de nossa casa em Morro Branco. Mulato, torado no grosso, não era um caseiro, porque nunca tivemos nem quisemos status para este tipo de relação classista.

Era um rapaz, filho de uma funcionária da minha Tia Ana Maria. Tereza, de um português impecável: “Fulano de tal tem uma ceronca(cerâmica)”. Ou num carioquês nonsense: “Aquela mulé é mutcho chata.”

Tereza, bravia dos morros de Mãe Luiza, encravados em área nobre de Natal, se gabava do dom da cura. Rezava menino doente, acabava briga de vizinho nas suas orações que ninguém entendia. Se quisesse, acabava briga no braço mesmo, porque tinha músculo de lutador.

Pois Zezinho foi trabalhar lá em casa. Ele com 16 anos, eu nos meus 14. Zezinho sonhava em ir pras Forças Armadas. Sonhava ser Michael Jackson. “Triler, triler, anái”, cantava ele em sublime inglês, depois de rodopiar ao clip de Thriller, exibido no Fantástico.

Ao receber um dos seus primeiros pagamentos, Zezinho comprou um LP bolachão do seu ídolo. E parecia um mamulengo na imitação mal feita. Até que um dia eu voltei da escola em 1984. E anunciei: “Deu agora na Rádio Cabugi(hoje Globo): Michael Jackson vai cantar em Natal, no Palácio dos Esportes. Dia 20.”

Nem disse o mês, o ano e nem precisou. Zezinho caiu na lorota, encomendou uma calça arrochada( deixo bem avisado que ele não era fresco, namorava umas belezucas lá do seu bairro), deixou crescer o seu Black Power ainda mais. Esperando o show. Eu nunca disse, mas ele ficou a miniatura de Toni Tornado.

O Palácio dos Esportes é um pequeno ginásio(já foi o maior) de Natal. Espremidas, caberiam nele três mil pessoas, como nas lutas-livres e jogos de futsal ABC x América.

Zezinho passou duas semanas para descobrir que não havia cartaz de Michael Jackson e que eu tinha feito ele de besta. “Fica assim não Zezinho, é que preferiram trazer Sidney Magal e ele dançou.”

Zezinho ficou chateado comigo e prometeu, no dia que fosse pai, homenagear o astro pop: “O menino vai se chamar Maiquel Jeferson.”

Zezinho sumiu no pó da vida, soube dele como ajudante de caminhoneiro, varando o país afora.

Nem sei se ainda gosta do cantor que acaba de morrer e de virar santo, como todos os que morrem ou vão embora do seu lugar.
Parece até que eu estou ouvindo: “Triler, triler, anái”.

Pronúncia perfeita.

Grafia, nunca pude conferir.

COMO QUE POR ENCANTO - 26.06.2009

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O jornalista Mário Ivo, redator estilista, bom como publicitário e como jornalista, é uma figura enigmática do bem. Caladão, tranqüilo, é dos melhores textos de Natal. Escreve uma coluna diária sobre cultura e há poucos dias, convidou-me para um café-da-manhã, pano de fundo de sua escrita aos sábados. Uma colher-de-chá das grandes para o meu livro de crônicas recentemente lançado.

Aí me lembrei da casa dos meus sogros, lá onde o elefante faz a Tromba no Mapa do Rio Grande do Norte. Urbanocrata, deveria ir mais naquele mundo que parece não ter fim e abriga os simples, gênero escasso e superior da espécie humana. Remexendo aqui e acolá, repasso o que contei a Mário Ivo, ele próprio, um observador de veia campestre.

Quando vou ao interior, fico em casa de alpendre largo, salas ornamentadas por fotos antigas de gente que já morreu, de cozinhas fumegantes.

Meu café-da-manhã supera um almoço. Quase 10h30, 11 horas quando acordo, vencedor imaginário de todos os meus problemas, Jerônimo dos açudes sangrados, das capoeiras verdejantes.

A mesa da casa dos meus sogros, faz inveja a Ojuara, de Nei Leandro: Tem leite tirado no raiar do dia, sucos variados, tapioca, queijo de coalho, queijo de manteiga, uma república de queijos, beiju, carne assada, costela de cabrito, bolo preto, bolo da moça, bolo da descabaçada, doce de goiaba,milho cozido, milho assado.

O melhor da mesa é a presteza de minha sogra Chiquita, de avental, uma executiva do Alto Oeste. Dá ordens às cozinheiras, prova ela própria cada prato, resmunga com os meninotes que metem a mão nas delícias expostas, me oferece pão assado, pão com manteiga do sertão, alfenim, até carne moída.

Encanto, a 450 quilômetros de Natal(quando estou lá gostaria que ficasse a 900), é a terra do meu descanso. Vou lá no máximo duas vezes ao ano, pelas razões que não me permitem tomar café da manhã como um ser humano no dia-a-dia infernal.

Da próxima vez, pretendo pegar o bule de leite fervendo e nele jogar o celular, um eficiente inibidor de apetite. A pior das invenções, é patrulheiro, invasivo, perseguidor.

Um dia eu não vou usar celular.

Ainda que seja no Encanto, lindeza na grafia, aumentativo de sossego.

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