"Quem perdoa o mal, é pior."(eu).

HIPÓCRITA - 24.03.2008

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Natal, anos 60. Vestia um paletó que o tornava muito mais velho que os vinte e poucos anos que tinha. Saía de casa, num dos bolsos, com um velho terço deixado pelo avô. A noite começava a cobrir a cidade e a enfrentar o calor escaldante. Durante o dia, o cidadão que ainda não era pai, mas haveria de ter lindos herdeiros fiéis em Cristo, dava aulas de Educação Moral e Cívica, numa das tradicionais escolas da província.

Defendia os bons costumes, a fé como instrumento de sucesso na vida e a disciplina como rainha da harmonia. Pregava a concórdia, sorria um sorriso sempre igual a cada um dos seus alunos entediados. Corrigia os desatentos, lamentando não acumular então, a disciplina de Educação Religiosa (na época, só o catolicismo), geralmente sob a responsabilidade dos padres de verdade, ele que sonhara com uma batina até a descoberta do onanismo. Na maldita noite do pecado, penitenciara-se com os joelhos dobrados sobre caroços de milho, que quase perfuraram sua ossuda pele de coroinha.

Na Igreja, igualmente ajoelhado, arquejado porque tinha quase 1,80 de altura, construía uma visão gótica sob os anjos, arcanjos, santos e santas da velha catedral. Recitava, calado, salmos, versículos, orações, segurando o terço e penetrando mistérios. Deus estava acima de tudo, há, sim, só ele.

A pé mesmo, chegava à livraria onde era tratado como prodígio, pois já lera, rapazinho, Eça de Queiróz, Machado de Assis, José de Alencar e rejeitara blasfêmias como Marx e Engels. \"Dionisíacos!\", berrava certo fim de sarau, empolgado com os vinhos servidos e a matreirice dos velhos freqüentadores, quase todos reacionários, conspiradores, alguns remanescentes espiões nazistas.

Naquele dia que a noite acariciou e expulsou o calor e ele caprichara na reza solitária na igreja, não beberia. Havia vestido o terno preto, gravata da mesma cor por cima da camisa branca, porque seria iniciado noutra missão. Os velhotes estranharam quando ele saiu mais cedo do que o habitual horário.

Sorrateiro como um vampiro, na quase-madrugada que colocara os últimos boêmios para dormir, bateu na porta de uma elegante residência à rua próxima. Veio um cidadão formal que o atendeu já sabendo da visita. \"Ele o espera\". Por não haver espelho, o cristão professor não viu brilhar os seus olhos nem deles desabrochar um sorriso idiota. \"O senhor não sabe a alegria e o prazer de estar aqui\", derramou-se dobrando a coluna quase a ponto de beijar a mão do senhor sisudo a quem entregou uma lista. \"Aqui estão, aqui estão todos, esse é da turma A, esse é da B, esse é da C, agitadores, comunistas. Em nome de Deus, peço-lhe humildemente que cumpra sua missão\". E despediu-se, sem ouvir resposta.

Na manhã seguinte, fez um olhar compungido quando vários carros militares pararam em frente ao colégio e homens armados desceram, algemando e prendendo adolescentes. Alguns deles, nunca voltariam. Teatral no movimento de contorcer a cabeça, o jovem cristão fez o sinal da cruz: \"Deus os leve\". E foi dar sua aula estranhando toda a algazarra jamais vista por ali.

PS. Esta é uma história de ficção. Qualquer semelhança com personagens ou fatos terá sido mera coincidência. Mesmo.

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