LINHA DO ALÉM - 05.03.2009

Há um telefone em minha mesa a ser estudado pelo que houver de extraordinário em ciência e atabaque. Fica ao lado do computador que trabalho e deveria ser usado para ligações diretas. Não tem bina.. Nunca recebi uma ligação certa nele. “ Porra Gomes, faz três dias que eu estou procurando você. Quando quer dinheiro, você sabe aparecer, mas para pagar, se esconde.” Estava possesso o homem do outro lado na linha. Dei três negativas e não consegui provar que não me chamava Gomes e que ali era um local de trabalho. Público. “Você é um velhaco!” e desligou na minha cara o cobrador.
Quando se trata de serviço público, uma palavra é batata na boca de quem quer descolar algum favor: chefe. “Quer falar com quem amigo?”, eu pergunto. “Com o chefe, o senhor, o que é? “ E eu: “O seu nome, por favor...” O cara: “meu amigo quem tem que dizer é você, eu quero o chefe do almoxarifado e você deve ser o varredor, vai se lascar.”
Não estou inventando, sério: Eu nunca atendi uma ligação neste número que me levasse a algo proveitoso. Cheguei a pensar em tirá-lo daqui, mas a maior parte do dia ele não incomoda e eu, cheio de bronca para resolver, acabo esquecendo.
Quando ele bate a sineta, fico na maior expectativa. Um dia conheci Dona Graça Leite, que mora na Zona Norte de Natal.
Ela também discou “o xx79”. E pedia pelo amor de deus para falar com Lourdes da enfermaria. “De onde?”, insisti, na frente de umas três pessoas que me apresentavam uma proposta de campanha de arrecadação de ICMS. “Da enfermaria?”
Falei umas duas vezes que onde eu estava não era um hospital, embora confessasse uma certa vontade de sair correndo doido algumas vezes. “Eu também vou correr doida, meu filho, se não achar Lourdes, na enfermaria. Eu moro aqui na Zona Norte e ela ficou de me dar um retorno.”
Descobri o nome de dona Graça, o que fazia(aposentada), do que gostava(Novela da Record), que time torcia(ABC) e que era viúva. “Aqui não tem Lourdes não, dona Graça, eu preciso trabalhar. “ A ligação terminou com ela dando um carão bem-humorada. “Lourdes também, porque ta faltando demais ao trabalho. Não sei como funciona a enfermaria de vocês.” E bateu o telefone.
Estou olhando para ele enquanto escrevo. O número é pregado com fita durex, um telefone simples e calado. E completamente maluco. Uma manhã agitada, de anúncio de medidas no gabinete da governadoria, ele tocou em meio ao pandemônio de jornalistas dentro da sala. “Não vou atender este puto , hoje,” prometi. Ele pareceu ouvir e disparou como uma sirene. Eu quis bancar o engraçado ao atender: “Cemitério do Alecrim, às suas ordens.” O rapaz na linha – não sei se dessa parte ou de outra -, se desculpou : “Ah! Perdão, liguei foi para o Morada da Paz.”
Telefone sacana. Tá olhando pra mim, tenho certeza. E rindo.



