"Quem perdoa o mal, é pior."(eu).

MUITO PRAZER - 29.03.2007

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A tragédia começou quando eu nasci. Felizmente não entendia nada. Só os sorrisos de soslaio e mangação. Entendi a gravidade do meu problema assim que comecei a estudar. A chamada escolar era uma tortura. Nem a professora segurava a gargalhada, germinada nos bancos detrás, territórios das quadrilhas estudantis. Quando a letra M apontava, eu me sentia um cadáver de anjo: “Márcia, berrava a tia. Presente, respondia Márcia, de cabelos cor de sol. Marilda! Presente, sacudia-se a mais saliente da sala. Mércio, presente,. Bola na marca do Pênalti. MILÉSIMO! E eu, vergonha, desgosto e vontade de morrer, soltava 0,5 decibéis em meio à vaia: Pré-pre-pre-sente... Até Murcivaldo, que sentava-se ao meu lado, sacaneava, superior.

Nasci em 1969, inicio de dezembro. Meu pai, um ferroviário, era meio doidão. Minha mãe, funcionária do Inamps, Instituto de Previdência da época, equilibrada. Por ela, meu nome seria Roberto Itapemirim da Silva. Sim, éramos e somos Silvas. Mamãe chifrava papai com os discos do rei do iê-iê-iê. Meu pai, Sebastião Francisco e por coincidência, Silva, torcia pelo Santos. E pelo Vasco. Pelé acabara de marcar o gol 1000 contra o Vasco do goleiro argentino Andrada. E o meu pai radicalizou como o PCBR da época: ou o menino se chamava Milésimo ou Charles Manson, o monstro que assassinou Sharon Tate grávida, ela e toda a equipe do filme que estavam produzindo.

Fiquei Milésimo pelo machismo. As gozações não me afetavam mais até a puberdade descoberta. Juntados os trocados, lá fui eu à casa de prostituição mais famosa da minha cidade. “Prazer, Milésimo”, disse eu à dama borrada de batom e ruge. Ela, escolada nas artimanhas das quatro paredes, foi mais uma a me humilhar: “ Neném, ainda não cheguei ao centésimo, faltam novecentos até chegar sua vez”.

Eu sou de 1969 e me chamo Milésimo. Num certo baile, chamei a moça para dançar. Ela veio. E cochichou. “Nós apostamos , eu e as minhas amigas, quem dançava com você. Milésimo. Que nome rapaz! Parabéns ao casal que o pariu!” .

Tenho 38 anos. Sou casado com uma mulher que me chama ora de Mimi, ora de Ésimo. Meus pais morreram e eu não tenho saudade deles. Meus filhos têm nome da moda: Mateus, Diego, Tiago, Paulo, que nunca me salvarão do triste batismo a que foi sentenciado.

O meu pai, ao me batizar, estava em desgraça em casa. Me escolheu como objeto de vingança para o resto da vida. Pelé fez o gol que leva o meu nome. Sou atarracado, baixinho, moreno, bruto e chato. Me chamo Milésimo. Sou Vasco. Muito Prazer.

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