COINCIDÊNCIA - 19.03.2007

Câmara Cascudo adorava Moysés Sesyom, um homem com o nome no sobrenome. Para Cascudo, ele era o Bocage Norte-Rio-Grandense. Nascido nos arredores de Caicó, adotou o Vale do Açu como a sua terra autoral. Sofreu de sífilis, morreu em 1932, aos 49. Foi bodegueiro, depois de sentar praça na polícia. Inspirou gerações de poetas , é descrito com admiração e reverência por Nei Leandro de Castro, que o desenha com talento sobrenatural em Pelejas de Ojuara, que já virou filme, embora não tenha sido lançado ainda para os mortais.
Amanheci de ressaca moral a segunda-feira, depois que o Assu(com dois esses e a grafia até hoje gera controvérsias), massacrou e humilhou o ABC no estádio Frasqueirão por 5x0. Cinco pra eles, zero para nós. A última vez que eu vi o ABC levar de 5x0 foi no Machadão, quando eu tinha dezoito anos. Tenho mais dezoito agora, quando o porteiro me entrega um envelope colado e sujo de graxa de galinha. Como se tivesse sido mexido por um boêmio de balcão e diploma na vida.
Abri e vi letras arranhadas, quase ilegíveis, piores que as de um médico ou jornalista quando escreve à mão. Letra de médico, só o doente, agoniado, entende. Não acredito em alma lá do outro mundo, embora tenha medo de teatro e igreja vazios à noite. Dizem que é lá que os fantasmas se encontram para rezar ou agourar. Deu pra ver que no final do texto, que quase me matou de espanto, havia as iniciais M.S. Assim estava escrito, na missiva do além:
Mote
Quando é domingo à tarde
Eu não como camarão
Glosa
Quando é domingo à tarde,
Eu não como camarão.
Belo prato que eu adoro,
Minha maior refeição.
Mas se é domingo à tarde,
Pra não dar indigestão,
Prefiro matar o ABC,
Com cinco tiros de canhão.
Lá no Estádio Frasqueirão,
Se camarão eu não como,
Assombro como uma alma,
Ribombo como um trovão.
Traço sem garfo e faca,
O Mais Querido do Povo,
Se brincar faço de novo,
Na minha glosa lá do vale,
Com a força de um alemão.
Alemão é o camisa 8 dos assuenses. Moyses Sesyom, que fazia lindos poemas considerados imorais, como aquele em que fala do peido que a doida deu, teria mandado uma gozação para mim? No jogo desastroso, que assisti silencioso, notei que os boleiros do Assu jogavam na rima e na métrica, cumprindo fielmente a regra da simples poética. Três gols eles fizeram na linha de passe, três toques no máximo. Tum, tum, tum. Ligeiros que só talagadas de cachaça. Minhas mãos estavam trêmulas e o papel amarelado sambava até cair no chão.
Mais cismado eu fiquei, quando depois descobri, é de Moyses Sesyom, o que li e reli:
Mote
Eu só como camarão
Com muito sal e pimenta
Glosa
Quando faço a refeição
Passo a vista sobre a mesa
Se até tiver com franqueza
Eu só como camarão.
Com cerveja fria e pão
Faz um paladar setenta
Satisfaz e alimenta
É um prato apetitoso
Mas só fica saboroso
Com muito sal e pimenta.
Sem perder a paciência, mesmo depois de um 5x0, achei muita coincidência.



