"Quem perdoa o mal, é pior."(eu).

PRÓS E CONTRAS - 08.03.2007

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Se há tempo para tudo, conforme ensina o mestre maior Sanderson Negreiros, escritor e cronista sublime da terra em forma de elefante, há de se respeitar o tempo todo o tempo. Ele ensina, amadurece, corrige, põe tudo no lugar. O Rei Tempo só desagrada aos impacientes. Pobre deles, feito eu.

Se ainda sou um apressado, aprendi com o tempo a ser um desconfiado. Fui, sim,
recompensado. É a primeira regra do meu manual de sobrevivência. Minha própria sombra é permanentemente revistada. O retrovisor do carro, além de espelho é colete à prova de balas e de almas pobres e covardes. Não acredito no sorriso exagerado, no elogio entregue desembrulhado, na falsidade do olhar sempre ao chão.

Reencontrei um grande amigo de adolescência há poucos dias, ele no tempo da frustração plena, rosto a meio-pau. Um funeral ambulante. A mulher que ele ama(ou acha que) havia lhe pedido exatamente o que nunca se pode dar, mas se esperar: um tempo. E eu me fantasiei de um otimismo que a minha face rude e um tanto inchada de cansaço disfarçam perfeitamente: “ Fique assim não, rapaz. É tempo de cair em campo, deixar a desolação no colo de quem a gerou. Abuse da regra três, ouça MPB-4”.

Falei como se estivesse em frente ao túmulo do meu pai, que não responde. Mudo estava, calado ficou o meu amigo, emagrecido, curvilíneo de espírito. “É, acho que o tempo é o fim, “ foi o máximo que respondeu, lacrimejante.

Brutalizado pela vida, sem religião nem crença na verdade da minha geração, cobri-lhe de palavrões machistas, como um técnico de time que está perdendo de 2 a 1 aos 40 do segundo tempo, sempre ele. Queria ser o bombeiro da auto-estima do amigo sofrido. “ Então tenha vergonha na cara, seja homem como seu pai foi, e siga em frente, seu puto”.

Foi como receitar novalgina para uma fratura exposta de tíbia e perônio: “Não, estou sem forças e você é um péssimo ombro.” Ainda tive tempo de sacudi-lo pelos braços, recitando-lhe uma história afanada de um conto de Rubem Fonseca, em Feliz Ano Novo, que a censura animal e burra vetou na Ditadura. É a história de um homem apaixonado pela noiva que descobre que ela usa dentadura, não tem um molar ou canino pra contar. E pede ajuda a um conselheiro de jornalismo marrom, que assim responde. “Amigo, veja as vantagens de se ter uma namorada assim: você jamais será aporrinhado com ela sentindo dor de dente numa madrugada de domingo, jamais.”

O morto-vivo não riu. Despedi-me entregando-lhe a crônica de verdade de Sanderson Negreiros sobre o tempo, uma antologia dominical. Ele prometeu ler. Não acredito que seja logo.

Relaxa, que tudo o tempo encaixa. Do meu amigo, não tenho mais notícias.

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