O PAPAGAIO - 02.03.2007

Faltou energia elétrica em meu bairro durante uma hora na noite de quarta-feira. Confesso que eu não sou um homem preparado para conviver sem iluminação. Fiquei sem TV, DVD, condições de ler. Tateando, fui até o velho e salvador radinho de pilha, sintonizando a Rádio Globo, que transmitia Fluminense(RJ) contra o Adesg do Acre. Fiquei ouvindo o jogo por absoluta falta de opção. Até o cachorro, um poodle que leva parte do meu apelido, chama-se Binho, o poodle, medrou, escondendo-se sob os lençóis. Cãozinho frouxo aquele meu.
O Fluminense fez logo o seu gol. Mas não convenceu o comentarista Gerson, o Canhotinha de Ouro, que os mais novos vêem pelos VTS da Copa de 70. Gerson foi o maior lançador da história do nosso futebol. Fumava nos intervalos, era o anti-atleta. Jogava demais. E continua falando pelos cotovelos. Fazendo por ali o que os seus pés encantados produziam.
Contam alguns palmeirenses inconformados que Ademir da Guia, o Divino, nunca conseguiu ser titular da seleção brasileira porque perdia para Gerson no grito, no gogó, na malandragem. Os dois são imortais e em quem a camisa 8 fosse posta estaria assinada por Armani.
Naquela quarta-feira de breu, Gerson não só tagarelava. Praticamente impedia o narrador de cumprir o seu papel. Tricolor de coração, só não entrou em campo para substituir o meia-armador Arouca. “Brincadeira! Essa meiúca não ta com nada. E pra vencer essa porcaria de time, um tal de Adesg!” E transformou os pobres acreanos em coisa nenhuma. “Com um pé só eu ganhava desse time!”, irava-se o carequinha que imortalizou-se pela frase de um comercial de cigarros nos anos 70, que até hoje o persegue: “É preciso levar vantagem em tudo.”
Gerson, algum tempo atrás, também espinafrou o ABC, em jogo contra o Flamengo. Constatou o que todos nós sabíamos, que o time de Natal era muito fraco. Foi uma revolução aqui na terrinha. Bobagem. Gerson não caiu na real e é mesmo o papagaio que lhe apelidaram quando jogava. Ele próprio teve o seu dia de mingau em 1962, quando, pelo Mengo, levou um baile de Garrincha a quem marcava, improvisado na lateral-esquerda.
Todo falador toma na testa. Gerson ficou inconformado – e com toda a razão -, de não ter sido posto na lista dos 120 melhores do mundo feita por Pelé. Como castigo, desapareceu do belo filme sobre o rei. Quando entra o Brasil x Itália, não aparece o segundo e decisivo gol do Canhotinha contra a Azzura. O foco é só no placar: 2x1.
Gerson hoje só fala demais. Está perdoado. Jogava demais o papagaio.



