A GRANDE FINAL - 31.03.2006

Uma grande final abalava o meu magro coração. Uma semana antes da decisão, já batia em ritmo de frevo. A cabeça era um filme de Hitchcok, aqueles taróis terríveis de O Homem Que Sabia Demais, um suspense asfixiante com James Stewart e Doris Day, gravado em Marrocos.
O vivente que desprezava uma final de futebol sempre tinha 40% a menos de qualidade. Pelo menos 40%. Nada era mais importante na existência do planeta. Nada lembrava mais a dicotomia entre vida e morte do que uma partida decisiva. Gargalhada e pranto num só teatro à mesma hora, tiro e queda, amor e ódio. Escrevo no tempo passado porque não posso levar a sério uma decisão entre Americano e Madureira. Ou Ipatinga e Cruzeiro.
Aqui em Natal, dois duelos me fizeram chorar. Um de tristeza, outro quase por orgasmo. O primeiro foi em 1979. O ABC ganhara um turno e a primeira fase do segundo. Com um empate diante do América, ficaria com o título. Um atacante, chamado Oliveira Piauí, saiu da cadeia onde ficara por assassinato alguns dias para marcar os dois gols da vitória por 2x1. Dias depois, perdíamos o campeonato nos pênaltis. Eu era mascote alvinegro e desabei aos 9 anos, enquanto meu pai se fazia de forte e me abraçava.
Me vinguei – tenho uma queda confessa pela vingança -, quando já era pai, em 1993. Aos 23 anos, precisávamos vencer no tempo normal e na prorrogação. Ganhamos de 2x1 nos 90 minutos. O América segurava o empate no tempo extra e o seu presidente regia a torcida antecipando a comemoração. O ABC tinha um meia clássico, Sérgio China, que, restando 20 segundos para o fim, de trivela, fez explodir o estádio, ressuscitando mortos que subiram as rampas para uivar assombrosamente no Frasqueirão.
Magro igual a Mogli, o Menino Lobo, cai da cama ouvindo a Rádio Globo em 1982. Ginga afro-latina, Adílio do Flamengo, apenas por pirraça, esperou os 44 minutos do segundo tempo para sair driblando meio time do Vasco até tocar de leve na saída de Mazaroppi, ganhando a Taça Guanabara(meses depois daríamos o troco vencendo o Carioca).
Seis anos depois, Mogli de barbicha, assisti a Romário dar um chapéu fenomenal em Zé Carlos e tocar de cabeça, de leve, virando um Vasco x Flamengo que parecia perdido. Romário aos 22 anos, driblando em velocidade, recebendo lançamentos profundos de Geovani. Meninos, aquilo, sim, era Romário.
Na semana passada, ouvi falar de uma grande final que parou o país. Em casa, no trabalho, na Internet, só se falava da peleja mais importante do mundo, a ser transmitida ao vivo em horário nobre. O Big Brother Brasil. Mara, baiana pobre, Mariana, caipirinha bonitinha e Rafael, professor e namorador. O Brasil parou por esses três craques.
Foram mais de 20 milhões de cabeças inteligentes ligando e votando. Imbecil sou eu que não assisti, não votei e nem me extasiei. Afinal, o Big Brother é uma grande final. De idiotice.



