OS ABUTRES TÊM FOME - 17.03.2006

Me contaram a história entre Luiz Gomes, Tromba do Elefante potiguar e Uiraúna, sertão paraibano. As duas cidades são separadas por uma rua. Paramos, eu e o motorista, para tomar uma coca-cola de dois litros e comer uns pães franceses. Algo francês em sol impiedosamente catingueiro não deixa de ser surrealista.
O dono da bodega, Amaro, camiseta branca, parrudo, suando como um passista, tinha a cara desconfiada dos homens do Oeste. Olhar de raio-x percorrendo os dois visitantes. Debaixo da caixa registradora, seguramente, um Taurus 38. Viu que não havia perigo. Ali, as emboscadas são fatais como o calor.
Puxei o papo mais óbvio. Como estavam os açudes, roçados, bois e pastos. Tudo como Deus quer disse ele, emendando que bom é aceitar as coisas do jeito que Deus desenha. Gostei. E deixei ele falando. Foi se abrindo, ofereceu até uma cadeira de balanço para eu sentar.
Contou que a bodega era herança do pai. Homem bruto e bom. Vendendo conhaque, cana, pão doce, tempos depois cerveja até o requinte do pão francês com refrigerante, uma prole tinha sido criada. “Nenhum deu pra gente ruim”, dizia Amaro, orgulhoso ao confessar que o mais novo estava bem no Rio de Janeiro, morava em Belfort Roxo e trabalhava como vendedor de seguros.
Amaro estava querendo conversar e eu, escutar, buscando um refúgio para o espírito. Amaro então contou que o seu pai, nos anos 70, conseguiu comprar uma Variant, carro da moda na época, porque os lucros aumentaram com as vendas de mercadorias a um candidato a prefeito que terminou vencendo as eleições em Uiraúna.
O pai de Amaro, que por sinal se chamava Almiro, tinha um amigo, Zé de Sebastiana. Quando o carro chegou, foi o primeiro a quem apresentou o possante. Amaro, eu balançando na cadeira, me disse: “Pela primeira vez, seu Zé(Seu Zé, no caso, sou eu, como todos os seus Zés são aqueles que você não sabe o nome), eu vi ódio no olho de Zé de Sebastiana. Ele não falou nada, olhou pro carro, pros pneus, vidros, fez meu pai abrir a tampa do motor. Saiu dizendo vou ali cumpade e não apareceu mais nem lá em casa nem na bodega.”
Amaro então contou que a Variant começou a dar defeito e desgosto ao velho Almiro. Um pneu furava, o giclê dava defeito, a rebimboca falhava. O velho Almiro vendeu o carro e caiu numa amargura profunda. Até ter um mal súbito e ser levado correndo pro hospital de São Miguel, Rio Grande do Norte.
Foi na ambulância de Uiraúna. E logo entre as duas ruas espalhou-se que ele tinha morrido. Notícia ruim corre não como uma Variant, mas como uma Ferrari. Corre-corre, carolas de terço na mão, gente chorando. E Zé de Sebastiana reaparece, ansioso, visão de abutre. Vai à estrada e consegue uma carona a São Miguel.
Chega ao hospital, encontra logo Amaro fumando na porta, triste, mas firme. E Zé de Sebastiana puxa o punhal guardado na língua e na alma: “Quando é o enterro do cumpade Almiro, Amaro? “ Do quarto a dez metros, surge uma voz cansada que berra: “To vivo Zé! Foi só um susto, graças a Deus”. A voz era do velho Almiro. Zé de Sebastiana cai, fulminado. Chamam o médico: infarto, ele está morto.
“Que coisa”, digo eu, ainda me balançando. “Isso era olho grande que ele tinha em papai não era?” Eu respondo: “Era não, Amaro, era inveja, uma doença que maltrata o invejado e corrói o invejoso”. Paguei a conta e fui embora com o causo na cabeça. Quis voltar para contar a Amaro a história de Salieri, um compositor razoável que, por inveja, apressou a morte de Amadeus Mozart.
Que história, meu Deus. Agora por favor: ela não tem nada a ver com as caveiras que foram ao Machadinho secar o futsal do ABC, vice-campeão do Brasil. Podem ter certeza que não tem. Tem não, né?



