O PROTESTO DE LENIRA - 09.03.2004
Foi no Dia Internacional da Mulher que reencontrei Lenira. A meninada de hoje pode até perguntar quem é, mas a rapaziada anos 70 não tem direito à dúvida. Lenira, ou Nega Pelé, foi a primeira jogadora de futebol feminino do Rio Grande do Norte. Era habilidosa e brincava na meia-armação. Mandava no estádio Juvenal Lamartine. Tão bem que completava o time reserva do ABC em coletivos quentes na poeira do velho campo de Morro Branco. A meiúca titular é a melhor da história: Maranhão, Danilo Menezes e Alberi.
Lenira estava possessa e recebeu minha solidariedade. Lenira estava fula(para não dizer o verdadeiro palavrão que ela soltou), ao tomar conhecimento da lista dos 120 ou 125 melhores jogadores vivos do século. Relação encomendada pela Fifa a Edson Arantes, que empresta o apelido a Lenira. Nela, duas norte-americanas entre as melhores, como se não bastassem Higata(ou Tanaka?), do Japão e um Young Fu desses da Coréia.
“Não é querendo encher a minha bola não, mas hoje, agora mesmo, eu chamo essas duas gringas e dou um passeio nas duas”, desafiava Lenira, empolgada pela minha cumplicidade. Já imaginava vendo a quase cinqüentona calçando as chuteiras e tomando um avião, direto da Rodoviária da Ribeira até Miami, onde jogam as felizardas Michelle Akers e Mia Hamm escolhidas pelo Edson.
Lenira, atualmente mais parruda que nos tempos áureos, certamente toparia, também no braço, encarar o responsável pela lista. “ A verdade é que ele não sabe que eu existo”, caiu na real, com certa melancolia. “Mas que eu jogava mais do que essas duas aí que eu nem sei quem são, jogava mesmo e você sabe”, impunha, indicador colado no meu tórax de jogador de xadrez. Quem seria suicida para discordar?
Lenira foi mais uma omissão imperdoável do Rei, que aliás, é casado com uma prima minha legítima, Assíria, verdade, filha de Tio Abelardo, irmão de Rubens Lemos Pai. Assíria, com toda razão, não deve saber também que eu existo.
A passeata feminina já estava para sair quando eu lhe dei um argumento de compensação: “Lenira, você é tão excluída quanto Gerson, Tostão, Ademir da Guia, Reinaldo, Adílio...” E ela, de novo fumegante: “Esse Pelé nunca me enganou. Ele só prestava mesmo jogando!”. Fui embora aliviado, antes que outra injustiça de tamanho porte fosse lembrada por Lenira.



