"Quem perdoa o mal, é pior."(eu).

COMPAREM, POR FAVOR - 18.05.2012

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É só para comparar. Vou começar por um caso nacional recente. Depois que descrever os dois, vocês analisam cada um, claro, se quiserem, e respondem para si mesmos se é preciso ou não endurecer o Código Penal Brasileiro.

Nem quero influenciar ninguém e estou sob uma espécie de anestésico emocional quando vou teclando. Revolta, vou lhe contar, aqui pra nós, tenho, mas tenho de sobra. Muita. A hipocrisia das entidades dos Direitos Humanos me provoca ânsia de vômitos. Mas vamos lá.

Na manhã de terça-feira, dia 8 de maio, o sargento da PM Marcelo Afonso, 18 anos de farda, patrulhava a Pavuna, no Rio de Janeiro, com seus companheiros de equipe. Marcelo e seus colegas deram de cara com um assalto a um carro forte que abastecia uma agência da Caixa Econômica Federal.

Os bandidos, que conseguiram levar os malotes com dinheiro, já haviam assassinado a sangue frio um dos guardas da empresa de segurança com um tiro de pistola na cabeça. Policiais descem e dão inicio ao confronto.

Três marginais correm e são perseguidos pelos colegas de Marcelo em intensa troca de tiros. O sargento, de 42 anos, fica diante de um só assaltante, armado e lhe aponta o seu fuzil de calibre 5.56. Dá voz de prisão e o marginal diz que vai se render.

São poucos segundos até o desenlace. Marcelo, como se estivesse na Dinamarca, dispara um tiro de alerta para assustar o sacripanta que já havia tirado a vida de um pai de família, sangrando a céu aberto. O bandido jogou sua arma no chão e o sargento se aproximou.

O assaltante saltou sobre ele, tomou-lhe a pistola calibre.40 presa em seu coldre, houve uma rápida luta corporal e o bandido matou Marcelo com um tiro no crânio.
Fugiu levando as duas armas do policial, que deixou mulher, dois filhos, foi sepultado com honras militares e já nem é notícia, nove dias depois.

O delegado da Polícia Civil encarregado do caso deu um depoimento à imprensa sem delongas: "Ele morreu porque a mídia e as entidades ditas humanistas crucificam a polícia. Alguns policiais temem agir com força para não sofrer execração pública. A regra correta: Se já havia um cadáver, a probabilidade de haver outros era enorme, é estudo técnico. O certo seria o sargento ter atirado e matado o bandido e não dado o tiro de alerta."

Houve uma incursão policial no morro próximo ao local em que o sargento tombou. Os criminosos responsáveis pelo assalto que culminou nas mortes do vigilante e do sargento Marcelo levaram a pior. Morreram. Diferença parágrafo abaixo.

Na nova operação, subiram homens do Bope, tropa de elite da Polícia Militar. A imprensa afirma que os bandidos reagiram e abriram fogo antes de tomar chumbo. Um sociólogo criticou a "brutalidade " dos homens de preto. O nome do sargento Marcelo nem foi mencionado. O do vigilante muito menos.


Em Natal, a polícia apresentou o confesso assassino de Nova Parnamirim, aquele que trucidou a golpes de faca uma mulher de 61 anos, sua filha de 36 e ainda tentou matar uma criança de 10 anos, que chamei e chamo agora ainda mais de a Menina sem Estrela, pela falta de referência e esperança.

Nos filmes e livros policiais medíocres , o mordomo sempre culpado agia com algum refino. E todos sabíamos que por mais contundente, o crime era literatura, ficção, invenção e passatempo. Em Nova Parnamirim foi barbárie.

Na entrevista, o pedreiro e jardineiro, homem que cuidava de plantas, de flores e que deveria ter paz na sua alma, detalha a sua horripilante psicopatia, ou sociopatia, ao revelar a premeditação e a consumação de uma vingança pelo que ele alega ter sido desconfiança das patroas indefesas. Sim, ninguém ouvirá a versão das mortas.

O pedreiro que manejava flores resolveu torturar e matar para saciar seu ódio guardado e pronto para saltar na hora em que aflorasse. Primeiro, pelo que contou à polícia e aos jornalistas, aceitou o convite da idosa para um serviço de jardinagem em sua casa.

Ou seja, se alguém desconfia de outro, não volta a convidá-lo para passar de novo pelo seu portão. Então, ele viu que chegara o momento de destruir uma família inteira.

Provocou uma discussão com a mulher, disse que a matou não com um, mas com incontáveis golpes. A fúria é incalculável como não se mede a extensão do mal.

Então ele esperou pela filha. Ela chegou quando a mãe já era cadáver. O homem também usou do mesmo modus operandi, meu latim intensivo dos tempos em que o xerife Maurílio Pinto de Medeiros não perdoava canalhas nem temia seus melífluos protetores.

Foi mais perverso, o réu confesso. Torturou Tatiana, a jovem morta, para que ela revelasse senhas de cartões de banco. Matou-a, também. Restava a criança. Neta de uma, filha da outra assassinada. Ele tentou asfixiá-la, método hediondo.

A Menina Sem Estrela viveu o redemoinho dos afogados e o verdugo pensou que a havia vencido. Não conseguiu. Agora ele fala em Deus. Pede perdão. Jura arrependimento. A Menina Sem Estrela segue seu caminho. Sua vantagem sobre o sargento Marcelo, lá do Rio de Janeiro, é a de estar viva. Fisicamente. Comparem, por favor. Reflitam. Pensem nos seus filhos.

HUGO, A ESPERANÇA - 16.05.2012

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Hugo é a esperança. Hugo é o resgate da emoção em vida no futebol. Hugo é o menininho de microfone à mão enquanto o homem de paletó chora comovido com sua doce molecagem. Hugo, que é cego, discursa agradecendo a escolha de torcedor mais apaixonado do futebol carioca em 2012.

Hugo é vascaíno. Recebeu seu troféu das mãos do homem que chora, o centroavante Alecsandro, eleito um dos melhores atacantes e que desabou em prantos ao ver o menino pular como um saltimbanco liberto e falar sem amarras: "Eu amo o Vasco, o Vasco é minha vida". Sorrindo, verdadeiro.

Durante um jogo, o atacante Alecsandro imitou os gestos brincalhões de Hugo para homenageá-lo ao comemorar um gol. Logo foram feiras reportagens de televisão e jornal com o menino. Acompanhado pelos pais, Hugo encantou jogadores, torcedores e dirigentes do Vasco.

Frequenta São Januário e, no instinto indescritível do querer, procura pelo nome cada ídolo, abraça um a um. Escolheu o atacante Alecsandro e o goleiro Fernando Prass. Hugo é uma lição de vida. Falta-lhe a visão tão primordial. Não sabe o que é um drible, um lançamento, um elástico aplicado pelo canhoto Felipe.

Sabe o que é amor. Sabe melhor. Sabe o que é amar, mais importante do que receber. Hugo é o personagem frágil e apaixonante que virou mascote e guia do Vasco. Muito melhor: prova minúscula em estatura, gigante em ternura, de que é feita dos seus ingredientes a receita do futebol como instrumento de fraternidade e paz.

Viva Hugo, viva. Siga, Hugo, siga. Cresça, Hugo, cresça. Aflore nossos sentimentos perdidos, abra nosso peito abafado, faça correr nossa lágrima perene como um rio que você merece inteiro, para se banhar e inundar de inocência e paixão a humanidade que deve aprender com você a cada dia. Vai Hugo, futebol é você, a solitária e iluminada torcida, construída pelo amor, sem violência, sem dor.

DOMINAR E MULTIPLICAR - 14.05.2012

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Se você deixar, ela domina. Faz questão de dominar e pronto. Dominou. Pelo olhar, pelas palavras, pela arrogância, pela eloquência impulsiva, imperativa. Ela dominou os precatórios, nem pestaneja ao dizer, foi aos mais luxuosos hotéis franceses, enriqueceu, apareceu na Rede Globo. Ela é fantástica na petulância, amedronta pela caixa preta que faz questão de aparentar e é novelesca no acinte.

Ainda era noite das mães quando se fez celebridade nacional a ex-chefe do Setor de Precatórios do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, Carla Ubarana. A mulher que detonou um milionário esquema de corrupção do qual contou usufruir talvez por saber ser esta uma terra de exibicionistas.

Milhões foram tungados do meu, do seu, do bolso do caboclo e da cabocla que saem às cinco da manhã de sua casa na Zona Norte para trabalhar no comércio, voltar em ônibus que parecem latas de sardinha, dar atenção aos filhos e desmaiar em sono comatoso.

Caboclos e caboclas de uma aldeia sem segurança, educação e hospitais lotados de velhos e crianças sendo substituídos quando viram defuntos.

Eis a mulher que ingênuos pensavam arrependida. Estava segura de si, como uma Odete Roitman bem-sucedida. Decidida, arrumada, semblante de assustar Hannibal Lecter, aquele do filme O Silêncio dos Inocentes. O olhar do ator Anthony Hopkins, por ficcional, me assustou menos que o aspecto autoritário e calculista da dominadora dos precatórios ao jornalista da Globo.

“Eu domino os precatórios”. Sua definição, sumária como uma sentença, quis dizer muito mais para qualquer anotador antiquado e em desuso (meu caso). Ela mandava dizer, ao Brasil, que dominava muito mais do que papéis e cédulas. Como não sou juiz nem repórter metido a usar toga virtual, a Justiça decidirá.

A Dominadora dos Precatórios, se demonstrou toda a autossuficiência sob vigilância do Batalhão de Operações Especiais e depois de desmontada pela investigação do Ministério Público, como não terá tratado os seus subordinados, em seu estilo “eu mando, eu posso, vocês obedecem, tenham juízo?” Imaginem.

Nem as imagens da mansão praiana cinematográfica, dos automóveis luxuosos, do dinheiro transformado em papel higiênico, de certo para nos simbolizar como produto do esquema, nada foi tão certeiro quanto o cinismo da mulher que mandava e ainda parece governar o caso tendo o luxo como objetivo e o lixo de metodologia.

Seu vaidoso marido, tão secundarizado e providencial ao catalogar aos promotores, o destino do que foi roubado, parece um pacato obediente. Ela, não. Ela domina.

Precatórios que lhe proporcionaram uma vida nababesca de Código Penal. Tomei um Dramin quando ela terminou de falar. Ela assusta. Se a mim foi assim, imagine a quem deixa transparecer que tem nas mãos sob o medo imposto por aquele olhar transfixante.

GAZELA DA BOMBONERA - 13.05.2012

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Riquelme consagra a frase de outro orgulho argentino, o poeta Jorge Luís Borges, símbolo da cultura hermana, cego no olhar, visão de genialidade pelas palavras. Na segunda parte de seu poema Xadrez, Borges, iluminado, diz assim: “Deus move o jogador, e ele a peleja.”

É a síntese de Riquelme por alguém que morreu antes que ele surgisse e que no ato premonitório dos virtuosos, profetizou o que jamais enxergaria. Juan Román Riquelme, idade cristã dos 33 anos, tempo futebolístico da despedida, momento que o camisa 10 do Boca Juniors transforma em redenção pela regência e domínio soberano de um duelo de 90 minutos.

Admirável Riquelme desde a década passada, quando desafiou a tese mecânica com seu futebol de lentidão disfarçada de capacidade de articulação indomável. Riquelme esconde a bola, do jeito que os craques de pelada faziam, usando o corpo de escudo e a habilidade incomum como arma sutil e poderosa.

Arredio Riquelme, rebelde e contestador de técnicos, desafiador de esquemas medrosos, senhor irrevogável de suas características de condutor e proprietário de cada espaço demarcado ou oculto de um meio-campo. Caminhante passeando pelas avenidas e atalhos da criatividade.

Chato, insuportável, mascarado, prepotente. São termos usuais que os brasileiros, maus perdedores e péssimos reconhecedores do talento alheio, destinam a Riquelme, tantas vezes verdugo de nossos times especialmente na Copa Libertadores da América, sua predileção especial.

Riquelme, o chato, poderá estar na Copa 2014 ao lado de Messi, aos 35 anos, dois mais novo do que Nilton Santos, bicampeão em 1962, enquanto nossos enganadores Kaká, Ronaldinho Gaúcho e Robinho sobrevivem nas ilusões dos nacionalistas e granadeiros de redes sociais e da imprensa ufanista.

Riquelme estava esquecido, cotado à aposentadoria e como todo ranzinza, resolveu desafiar a teoria e mostrar com quantos passes, dribles curtos e golaços se subvertem vontades decretadas pela inveja. Nem Maradona conseguiu domá-lo.

Riquelme continuará por muitos e muitos anos. Com seu jeito de ser, seu jogo de entorpecer, sua postura que faz o mitológico uniforme do Boca Juniors ser confundido com um smoking de uma festa suntuosa.

Seu salão de baile é o gramado, seu compasso é o do tango. Em quase tudo, menos no aspecto de homem rude, é a perfeição de chumbo como se Deus num erro de cálculo houvesse refeito um Ademir da Guia portenho.

MENINA SEM ESTRELA - 10.05.2012

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A menina de 10 anos é a menina sem estrela da verdade trágica. É a imitação real de Daniela, a doce filha do escritor Nelson Rodrigues, que nasceu cega, virou tema de livro e recebeu amores ainda mais passionais pela dor que parecia perseguir o pai como mantra.

A menina de 10 anos, do Conjunto Nova Parnamirim, que perdeu avó e mãe, é um pouco minha, sua, nossa menina, nossa filha, nossa órfã, nosso grito miúdo por justiça ainda que seja bem tarde.

A menina sem estrela, de 10 anos, magrinha, em imagens rápidas, buscando refúgio na imensidão do vazio, é o retrato indefeso da solidão da insegurança. A menina que renasceu para padecer até sempre, de saudade.

A menina sem estrela, de patinete, indecisa, ferida no corpo, titubeando ao caminhar, para onde irá com seus mistérios ao longo da vida? Quem cuidará da menina e de suas lembranças de uma tarde cujo mistério o jornalismo da Band Natal começou a decifrar quando sai da casa um misterioso homem, como um fantasma de romances esquecidos em sebos?

A menina de 10 anos, a menina sem estrela, é uma convocação, grito calado para que todos os homens e mulheres de vergonha reflitam sobre o que falta mais acontecer com as famílias dessa terra.

Uma senhora sexagenária, uma mulher de 36 anos, mortas a golpes de arma branca, que nas velhas coberturas policiais, representavam a tradução radiofônica dos golpes de faca, facão, tesoura, estilete, lâmina.

Quem matava assim, no meu tempo de repórter imberbe, matava por ódio, golpeava por despeito e vingança, inveja e rancor. Quem matava assim, guardava os piores instintos na mente.

Lembro demais a análise psicológica dos assassinos portadores de "objetos perfurocortantes ",feita com minúcia pelo delegado José Nunes, uma inteligência rara, espírito de detetive, elegante e montador de quebra-cabeças de sangue, racional em sua sala na velha secretaria de Segurança Pública, prédio histórico e abandonado na Ribeira.

A menina sem estrela, de 10 anos, não terá de volta o afeto assassinado. Que seja resgatada em seu futuro e siga sua vida dentro do que ainda possa ser considerado normal para quem testemunhou cenas tão bizarras.

Que se convoque Jules Maigret, o inspetor francês, com seu charuto indefectível, Maigret, do escritor belga Georges Simenon. Que Maigret salte das velhas páginas mofadas para salvar a menina sem estrela.

PS. No dia 8 de maio de 2012, no Bairro de Nova Parnamirim, Grande Natal, foram encontrados os corpos de Olga Cruz de Oliveira Lima,61, e Tatiana Cristina Cruz de Oliveira Lima,36. Ambas esfaqueadas e torturadas. A menina de 10 anos, filha de Tatiana, conseguiu escapar, mesmo agredida.

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