"Quem perdoa o mal, é pior."(eu).

AMIGOS OCULTOS - 06.05.2013

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Um baixo astral perder numa semana só Saulo Ramos e Paulo Vanzolini. Certo. Nenhum dos dois sabia da minha existência. A importância é que eu sabia deles. Admirava os dois cada um do seu jeito. Saulo Ramos menos pelo seu talento jurídico. Pelo humanista que conheci no livro Código da Vida.

Livro, aliás, que o "papa-defuntismo" literário deve estar retirando das traças do esquecimento para devolver às prateleiras, lucrando com a morte do escritor ilustre. O Código da Vida merece ser lido. É uma história biográfica sem pedantismos. Fala de sofrimentos, de amor por uma mulher, de um caso sórdido de um pai acusado de abusar dos filhos por uma mãe interessada em ficar com o seu dinheiro e, em 15o plano, com a guarda das crianças. Saulo Ramos defende o pai. E escreve um instigante romance policial.

A trama de mote é mesclada por histórias de bastidores políticos desde os tempos de Mário Covas prefeito de Santos, passando por JK presidente, a Ditadura e a morte de Vladimir Herzog, Saulo Ramos Consultor-Geral da República e depois Ministro da Justiça do Presidente José Sarney.

Saulo Ramos ganhou minha eterna admiração ao vencer com uma frase a batalha pela indicação de um ministro do Supremo Tribunal Federal. Ele lutava por um amigo, Celso de Mello. Disputava com o então ministro da Justiça Oscar Correa - Saulo ainda era Consultor-Geral - que exigia a nomeação de Carlos Velloso, integrante do Superior Tribunal de Justiça.

Na batalha conspiratória, Sarney apenas observava, torcendo por Saulo Ramos, mas percebendo a força política maior nas influências externas de Correa, que pensou ter dado a estocada final:

- Celso de Mello é excelente, mas tem um defeito. É muito moço.

Saulo Ramos ganhou a questão:

- Esse defeito o tempo corrige.

Saulo Ramos agiu como o sertanejo que ele amou nos violeiros, nos cantadores e poetas de feira, cujo trabalho pesquisava e incentivava. Morreu magoado com Celso de Mello. Que passou a hostilizá-lo e a persegui-lo.

Com Sarney massacrado pela impopularidade, foi leal até o fim. O descer rampas, uma marcha quase fluvial de escoamento, abandono e solidão, é uma experiência recomendável a qualquer ser humano com vestígio de dignidade.

A genialidade de Paulo Vanzolini ajudou a enterrar a piadinha sebosa de que São Paulo era o túmulo do samba. Vanzolini topava qualquer carioca de morro. Um cara que compõe Ronda, aquela canção que consagra a vingança da mulher traída na via-crucis dos botequins, da cena de sangue no bar explodindo em manchete, é um cientista da música.

E Vanzolini foi um cientista. Reconhecido no Brasil e nos Estados Unidos. Doutorado em Harvard. Mexia com cobras. Foi uma delas, no sentido cerebral, afinal, cobras, aquelas humanas, são asquerosas. Zoólogo, mestre e doutor, detestava aparecer, outra virtude dos extraordinários.

Formava com Adoniran Barbosa, para a música paulista, uma dobradinha Pelé e Coutinho, sem que nenhum deles se preocupasse em ser o Rei. Se entendiam, na inteligência e na criatividade. Na malandragem dosada a cada estilo.

Paulo Vanzolini fez uma das músicas mais lindas de minha vida, que escutarei, cheio de cervejas, ao lado dos caboclos dos Ingás. Chama-se Samba Erudito. Nem tão famosa, mas de uma profundidade poética impressionante. O caboclo apaixonado que cansa, se entrega à resignação e revela o amor próprio a quem tanto procurou.

Sonho um dos versos: Fiz uma poesia
/Como Olavo Bilac/ Soltei filipeta
Pra ter dar um Cadillac
/ Mas você nem ligou
Para tanta proeza/
Põe um preço tão alto
Na sua beleza. E veja a desistência conformada num épico de melodia: E então, como Churchill
Eu tentei outra vez
/Você foi demais
Pra paciência do inglês/
Aí, me curvei
Ante a força dos fatos/ 
Lavei minhas mãos
Como Pôncio Pilatos.

Paulo Vanzolini, grande até o fim. Velório e enterro fechados ao público. Deixou a ordem expressa quando estava muito doente. Certíssimo. Comigo também será assim. Nada de servir de bolo florido para um bocado de gente ficar falando da vida alheia, contando piada e contando quem está transando com quem. E, disfarçadamente, estirando o dedo ao indefeso. A diferença para Vanzolini é que planejo cremação após 75 anos, no mínimo.

A Saulo Ramos e a Paulo Vanzolini. Ao homem simples que, como o o humanista da amizade e o cientista do samba paulistano, reconhece a queda, não desanima, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. Na voz de Noite Ilustrada.

MESSI, MANUAL DE INSTRUÇÕES - 22.04.2013

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Pouco antes de disputar sua primeira final nas categorias infantis, Lionel Messi viu-se trancado num banheiro. O menino que nenhum zagueiro conseguia deter enfrentava um trinco emperrado. Faltava pouco para que a partida começasse e Leo espancava a porta sem que ninguém o ouvisse. O troféu daquele campeonato era o maior do mundo: uma bicicleta.

Uns teriam cedido às lágrimas e à resignação, outros teriam agradecido por não ter que demonstrar nada em campo. Leo quebrou o vidro da janela e pulou para fora. Chegou ao campo com a segurança de que nada o detém. Anotou três gols na final. O gênio teve a sua bicicleta.

O destino de Messi aconteceu pelo menos duas vezes. Filho de Célia e Jorge, nasceu em Rosario, província argentina de Santa Fé, no dia de são João de 1987, mas antes já tinha sido prefigurado nas tertúlias do café El Cairo, mais precisamente na "mesa dos galãs", presidida pelo maravilhoso desenhista e escritor Roberto Fontanarrosa.

A Argentina é uma fábrica de talentos futebolísticos que são previamente imaginados pelos torcedores mais verbalizados e fabuladores do planeta.

Depois de saber, por Macedonio Fernández, que viver é distrair-se da morte, Fontanarrosa escreveu o conto "O céu dos argentinos", no qual uns amigos fazem um churrasco e falam de futebol. Logo percebem que estão mortos. Isso os deixa muito felizes: se já morreram e estão comendo carne enquanto assistem a uma partida, então eles tinham ido parar no paraíso.

Sua mãe o descreve como um "consentido". Nada parece desmentir a hipótese de que as pessoas o amavam. Mesmo assim, o destino lhe reservava algumas provações.

Na vida de Messi tudo sempre foi questão de escala. Tinha oito anos quando seus pais se preocuparam com sua baixa estatura. Levaram-no ao médico e souberam que lhe faltava um hormônio que permite o crescimento. Havia remédio, mas custava US$ 1.500 mensais, valor que a família não tinha condições de pagar.
JUAN VILLORO


tradução PAULO WERNECK

Receberam apoio de duas empresas de Rosario. Uma vez por dia, Leo se injetava na perna com uma presença de ânimo insólita em alguém de oito anos. Desde então, sua destreza só seria superada por sua vontade.
"Quem é o pai?", perguntou o responsável pelo teste.

Jorge Messi saiu de trás de um alambrado. "Ele fica", disse o técnico. A contratação não chegou a acontecer. O time da faixa vermelha não quis negociar a transferência com o Newell's nem aceitou pagar o tratamento médico para um craque indiscutível, mas de futuro incerto.

Messi preferia ficar em Rosario, junto aos lentos barcos que avançam pelo rio Paraná, perto dos seus, celebrando o dia do Amigo "Leproso". Os laços sentimentais fazem bem ao boleiro. Não há nada mais estimulante --nem mais raro-- que um jogador que pode ser torcedor de seu time. Juan Román Riquelme é um sedentário extremo do futebol. Sente-se cômodo no vibrante estádio do Boca Juniors e fica desnorteado e cego se veste uma camisa estranha. Messi também desejava ficar em casa, mas a sorte o converteu na figura oposta a Riquelme: um nômade extremo.

Barcelona Em 2000, cruzou o oceano para fazer um teste no time blaugrana. O Barça é mais do que um clube. Mas isso queria dizer que ele adotaria um grande de Rosario que, curiosamente, era um garoto? Os primeiros dias na Catalunha foram complicados. O treinador Carles Rexach estava em Sidney. Leo e seu pai o esperaram durante duas semanas num hotel com vista para a Plaza de España.

Memorizaram a paisagem e viram com inveja o ônibus azul que ia para o aeroporto. Não queriam estar lá. Estavam quase fazendo as malas quando souberam que o treinador voltaria no dia seguinte. Dizem que quando o empolgado Rexach treinou no Japão, nunca sabia qual dos dois times era o dele.

No dia de seu encontro com Messi, chegou tarde ao campo, com seu costumeiro ar distraído. Mesmo assim, não custou a reconhecer o argentino no gramado, pois ele era o mais baixo de todos.
"Passou 15 dias em Barcelona, mas sobraram 14!", acrescentou Rexach, com seu gosto por inesquecíveis frases extravagantes.

Para tranquilizar a família, o técnico assinou o "contrato" mais fino do futebol. Em 14 de dezembro de 2000, pegou um guardanapo de papel em um bar e escreveu um parágrafo no qual se comprometia a cuidar do menino. O documento tinha o mesmo valor legal de uma súplica em Montserrat, mas hoje em dia está sob custódia de Josep Maria Minguella, o gestor da contratação, como uma valiosíssima peça de arte popular.

Em 1º de março de 2001, assinou-se um contrato de verdade e a família Messi se mudou para Barcelona, para dar apoio a La Pulga.

Um dos maiores desafios de um jogador de futebol é a administração da solidão. Precisa matar um tédio eterno em quartos de hotel. Isso se agrava quando o jogador é um garoto afastado de seu entorno. Sem os passatempos nem os raviólis familiares, Leo descobriu que morar em Barcelona era tão chato quanto chupar um prego.

Seus irmãos também se deprimiram. A mãe decidiu voltar com eles para a Argentina. Leo ficou com o pai na cidade onde então envelhecia outro estrangeiro: o gorila branco Copito de Nieve. Em Messi sobram habilidades, mas a história do futebol está cheia de talentos que ficaram pelo meio do caminho. Valia a pena permanecer em Barcelona, longe da família, sem recompensa certa à vista?

Uma tarde, o pai de Messi não aguentou mais e propôs que voltassem. Outra porta parecia se fechar na carreira do jogador. Mas, aos 13 anos, Leo já era um especialista em adversidades. O menino que escapou pela janela para ganhar seu primeiro título pediu a seu pai que ficassem. Em Rosario estava o mundo, mas em Barcelona estava La Masía, a escola de futebol onde se formaram Xavi, Iniesta e Guardiola.
Rexach teve a generosidade de contratar um jogador que não seria seu: ele não duraria tempo suficiente como treinador para ver a estreia de Messi.

A honra coube a Frank Rijkaard, que soube levá-lo com bom ritmo e apoiá-lo paternalmente durante sua primeira lesão grave. Depois contaria com Josep Guardiola, o técnico que interpreta melhor do que ninguém o valor da infância no futebol. Não por acaso, foi gandula no Camp Nou. Ao começar a temporada 2009-10, percebeu que seu plantel estava restrito e comentou: "Jogaremos com as crianças", numa alusão a Pedro e Busquets. Com Guardiola no banco, o lugar de Messi estava assegurado.

A chegada de Leo à maioridade coincidiu com seu amadurecimento futebolístico. Em 2005, fez 18 anos, foi escolhido o melhor jogador do Mundial Sub-20 e anotou seu primeiro gol pelo FC Barcelona. Em 2007, confirmou sua hierarquia no Santiago Barnabeu: em 10 de março foi responsável por um "hat-trick" --quando o jogador faz três gols numa mesma partida-- diante da equipe merengue, o Real Madrid.

Os números que Messi já ostentou nas costas traçam a biografia de um ídolo. Debutou no Barça com o 30, avançou até o 19 dos novatos que respondem e logo chegou ao upgrade definitivo: o 10 que Pelé e Maradona converteram em sagrado e, sobretudo, o que ele usava, ainda criança, no uniforme rubro-negro do Newell's.

As chuvas de gols e os seis títulos conquistados com o Barça na temporada 2008-09 concederam-lhe o troféu Bola de Ouro. Ao pegar a taça, sorriu feito uma criança numa sorveteria. Isso não saciou seu apetite: na Liga dos Campeões 2009-2010, igualou a estrepitosa marca de 47 gols de Ronaldo.

Viriam outros recordes, quase inverossímeis. Em 2012, tornou-se uma dor de cabeça para o time da cidade que fabrica a aspirina: marcou cinco gols no Bayern Leverkusen, novo recorde na Champions. Naquele mesmo ano, alterou um recorde que estava de pé por 40 anos. Em 1972, Gerd Müller tinha anotado 85 gols no mesmo ano. Messi levou a cifra a 91 e enviou uma camisa autografada para o artilheiro alemão.

Os prêmios se tornaram, para ele, uma rotina de trabalho. Nada foi tão lógico quanto a quarta Bola de Ouro que recebeu, superando Michel Platini, Johan Cruyff e Marco van Basten, que receberam três.

A saída de Pep Guardiola do Barcelona em meados de 2012 foi um golpe duro para Messi. O técnico que lhe deu todas as facilidades para explorar seu talento e prescindiu de um centroavante para que o argentino pudesse ser dois jogadores ao mesmo tempo (o que prepara as jogadas como meia e o que as finaliza como um camisa 9) concedeu-se um sabático depois de quatro temporadas de extenuantes sucessos, nas quais, com a ajuda de Messi, conquistou 14 de 19 títulos possíveis.

Leo não assistiu à coletiva em que Pep se despediu porque não queria chorar em público. Mas seu rendimento não só não caiu com a saída do professor, mas aumentou no Barça de Tito Vilanova, homem da casa, ex-assistente de Guardiola e continuador de seu projeto.

A grande conquista que falta a Leo é com a seleção argentina. Se ainda se duvida que ele seja melhor que Maradona ou Pelé, é porque não conquistou títulos com a Selección Mayor, como os argentinos chamam o seu escrete. Na Copa do Mundo na África do Sul, em 2010, ele jogou bem, mas não esteve à altura de seu gênio no bagunçado time que Maradona olhava da beira do campo, crente de que seu carisma superaria sua falta de ideias.

A Copa do Mundo no Brasil vai ser uma prova definitiva para Messi, a oportunidade de demonstrar que também pode triunfar em seu país. O peso sentimental e mitológico dessa exigência é nítido. Lembramos de Pelé e Maradona pelo que fizeram por suas seleções.

Aos 25 anos, Messi é o jogador mais apreciado do planeta. Em cada partida demonstra que o futebol é um esporte maluco, que não depende do físico. Seu 1,69 metro de estatura não o impediu de marcar um gol de cabeça na final da Champions de 2009, diante do imenso goleiro Van der Saar.

Sua marca pessoal consiste em brecar a seco e iniciar uma súbita corrida para deixar os adversários perdidos e, de fora da área, chutar no ângulo. O que não o impede de também inventar gols de artifício: na temporada 2008-09, conseguiu o sexto título consecutivo do Barça conduzindo a bola com o coração.

Messi atravessa um estado de graça que não se via desde Maradona, de quem ele já copiou o célebre gol de 1986, quando Diego Maradona driblou metade da seleção inglesa. O xerox feito por Messi aconteceu em 18 de abril de 2007, contra o Getafe. Essa obra-prima produziu uma outra, do jornalismo, assinada por Juan Sasturian: "Lionel Messi, Autor do Quixote". Assim como Pierre Menard, o personagem de Borges, La Pulga fez da cópia uma arte.
Escreve Sasturain:

"Nesses tempos de futebol mecanizado e jogadas preconcebidas com executores obedientes, não é tão raro que se vejam gols iguais a outros --há uma infinidade de casos em que se repetem, copiados, circunstâncias e desempenhos--; o extraordinário do caso é que, precisamente, o que se via magicamente repetido era o --por definição-- irrepetível, o excepcional: o melhor gol da história. O de Messi não era nem melhor nem pior: era, de um modo inquietante, igual. Não fez outro gol, parecido, nem o copiou, nem o imitou, nem o traduziu: simples e inacreditavelmente o fez outra vez."

Não sabemos aonde chegará Lionel Messi. Só sabemos que não há zagueiros nem trincos de portas que sejam capazes de detê-lo.

Quando uma criança quer uma bicicleta, é capaz de muitas coisas. Quando um homem joga feito o menino que quer uma bicicleta, é o melhor jogador de futebol do mundo.

O AJAX - 16.04.2013

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O videoteipe é uma das maiores invenções da humanidade. Sem ele, estaria impedido de escrever com certa petulância sobre times de futebol maravilhosos que marcaram época antes de eu nascer. O dispositivo de reprodução inventado pelos norte-americanos em 1950 me salva em discussões calorosas em rodadas de cerveja e tira-teima de fanáticos por futebol.

Minha coleção de jogos antigos é um tesouro inegociável. Ninguém invente de me fazer proposta. É um acervo de refúgio e companheiro nos meus dias de solitário voluntário. Repito partidas históricas e outras nem tanto, somente para rever dribles, lançamentos, golaços e gols perdidos.

Faltam-me uma partida do Ajax, a maravilha holandesa inspiradora da Laranja Mecânica da Copa do Mundo de 1974, vice-campeã para espanto do mundo, mas derrotada por outra seleção fortíssima, a Alemanha de Maier, Breitner, Overath e Gerd Muller.

Estou para receber uma coletânea de jogos do Ajax no tricampeonato europeu de 1970/1971 a 1972/1973, superando Panathinaikos(Grécia), Inter de Milão e Juventus(Itália). O Ajax sempre me foi um enigma, uma idolatria platônica descrita pelos mais velhos. O passado, é esquisito, é meu melhor companheiro.

Um anjo loiro começou a seduzir o mundo, com um jogo de maravilhoso esconde-esconde inédito na história: Johan Cruijff, astro de passadas rápidas, ritmo de gazela e antevisão de profeta.

Cruijff e Neeskens simbolizavam uma nova dança nos gramados: Os acordes ditados pelo futebol total, onde, à exceção do goleiro, ninguém tinha posição fixa. Todos marcavam em bloco e atacavam em massa, como um exército de asfixia sobre adversários impotentes.

Se me faltam jogos do Ajax, me sobram reprises da Holanda na campanha de 1974. Cruijff unia a modernidade tática à técnica impecável, bem latina. Bateu no Uruguai de Pedro Rocha, humilhado e fechado em retrancas para segurar um honroso 2x0.

Cruijff reduziu a picanha a Argentina com uma atuação soberba na fase semifinal, àquela época disputada em duas chaves de quatro times: Foi goleada 4x0 que poderia ter se prolongado aos 10 sem problema algum.

Contra o Brasil, dá piedade da seleção vestida de azul, acuada, nervosa e com medo, sufocada e sem espaços para sair do ataque, apenas em estocadas raras do craque Marinho Chagas pela lateral-esquerda.

Há uma cena histórica e ridícula . Rivelino, o camisa 10, atônito, cercado por quatro holandeses, olhos esbugalhados, sem destino, sem a bola, distribuindo e levando cotoveladas.

Cruijff e Neeskens fizeram 2x0 e não fizeram mais por soberba. Ficaram tocando bola e dando olé no retrancado escrete sem criatividade e com Mirandinha, do São Paulo, no ataque. Luís Pereira, o ótimo zagueiro do Brasil, perdeu a compostura e a capacidade de saber perder. Foi expulso e saiu da Copa do Mundo em episódio vergonhoso.

A Holanda morreu contra a fria e disciplinada Alemanha. Os chucrutes tomaram um a zero sem sequer pegar na bola com um minuto de jogo e nem se abalaram. Viraram no primeiro tempo.

A Holanda, desacostumada a perder, acusou o golpe e a sua derrota representou o fracasso de uma revolução que se vê hoje renascida no esplendor do Barcelona de Messi, Xavi, Iniesta e Fábregas.

Toques, deslocamentos, corridas sem a bola e marcadores sem entender nada. Assim jogava a Holanda inspirada no Ajax, um time tão fora dos padrões normais que se recusou a disputar as decisões mundiais em 1971 e 1973 contra o Nacional do Uruguai, pela violência do adversário e o Independiente da Argentina, em protesto pela Ditadura vigente no país sul-americano.

Em 1978, a Holanda, sem o toque extraordiário do Ajax, foi novamente vice-campeã em Buenos Aires perdendo apra a Argentina, campeã pela força e a tirania. Cruijff, brilhando no Barcelona, também se negou a jogar o Mundial, para não contribuir com propaganda indireta da Ditadura do general Jorge Vidella.

Me faltam jogos do Ajax. Não me falta a admiração alimentada pela fantasia, combustível do sonho. Vou providenciar os velhos jogos. Ainda mais agora, depois de ler uma declaração de Toninho Cerezo, ex-volante(precioso), da seleção brasileira.

Quando estava na Roma, Cerezo foi disputar um amistoso na Holanda. Seu depoimento, mineiro típico, define o coração e a razão do Ajax, um dos maiores amigos da bola. "Marquei um véio pela esquerda, mas não conseguia pegá-lo. O camarada deu um tapa(toque)de trivela para área e gol deles. Pensei: Esse é diferenciado".

Cerezo quase cai fulminado no intervalo do amistoso: "Ele veio me cumprimentar, disse que admirava meu futebol. Não reconheci o cara e perguntei seu nome"Cruijff. Pô era ele em fim de carreira no Feyenoord."

Cruijff parecia jogar disfarçado. Estava em todo o campo, o tempo todo. Sem ser notado. Um 007 das sombras de Amsterdã. Assim foi o Ajax, que vou conhecer com quatro décadas de atraso.

A VIDA É DELA, BELA - 12.04.2013

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Ora, a vida é dela. De Daniela. Ela está feliz e é verdade. A verdade no olhar, marca de quem vem de rara linhagem, sempre iluminou o sorriso e inspirou a voz da baiana. Gostava das músicas de Daniela Mercury em seu começo de carreira.

Luiz Caldas primeiro, com Nega do Cabelo Duro e depois Daniela Mercury, deram vida ao axé. Axé que foi ficando sempre igual, tão chato e comercial, como aquele converseiro de Durval Lellys, da Banda Asa de Águia, um vocalista muito mais para surfista.

A cor de qualquer cidade, quando estourou a música baiana carnavalesca, depois dos precursores Dodô e Osmar, chamava-se Daniela Mercury. Tinha uns gritos tribais arrepiantes. A cor dessa e de toda cidade era Daniela. Pernas belíssimas, bailado sensual, um mulheraço.

Daniela Mercury casou duas vezes, tem cinco filhos, sua carreira deu uma mergulhada, com a chegada de tanta banda medíocre e forró eletrizado. Daniela reaparece assumindo sua homossexualidade e tendo tratamento respeitoso, diferenciado.

Quem toma atitude corajosa como a que tomou Daniela Mercury, na hipócrita sociedade brasileira, é apedrejado no verbo e nas passeatas. Nas redes sociais, então, é massacrado. Daniela, quem sabe pela simpatia irradiante, o jeito fascinante que seduziu a jornalista Malu Verçosa, ganhou mídia. Muita propaganda e espaço na TV. Logo na Globo, audiência certa.

Daniela Mercury está de parabéns. Se anunciou seu romance com uma mulher para viver sossegadamente, sem exageros, ganhou nota 10 em dignidade. Mas um dia depois da maratona de entrevistas e depoimentos, resolveu meter a colher na cara do pastor Marco Feliciano, o assumido homofóbico presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.

O que danado tem Feliciano com a escolha pessoal e respeitável de Daniela Mercury? Nada. Nem ela com um assunto que é dos deputados federais eleitos. Feliciano também só está no Congresso Nacional porque o povo botou ele lá.

A onda de protestos contra Feliciano, de fato, um desprezível, só vai beneficiá-lo. Ele não terá 400 mil votos em 2014, como prevê o colega de parlamento e de pensamento, Silas Malafaia. Poderá chegar a muito mais. Bata num canalha inteligente que ele transforma a vergonha em vitimização.

Daniela Mercury deve mesmo é curtir sua paz de espírito. Estampada na sua beleza colossal. Ela continua linda. Sempre vai ser Daniela. A quero cantando. Não a quero para mim. E esse tipo de assunto, casamento homossexual, vamos ser sinceros: É politicamente correto aprovar no Brasil . Quando o assunto está longe de nossa casa. Não é preconceito. É realismo.

ALZHEIMER PRECOCE - 08.04.2013

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Meu amigo Washington. E olha que alguém ser chamado de amigo por mim precisa passar por todos os testes silenciosos de um escolado pela vida. Washington passou. É o cara que melhor me atende na pousada onde vez por outra me escondo quando posso em feriados.

No cotidiano, saio de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Com o celular tilintando. Na tal pousada, escondida na floresta do litoral indígena e divisório da irmã Paraíba, não pega sinal de celular.

Algum resquício de wireless, fraquinho, na recepção. Normalidade mesmo no centro da cidade, para onde fui enviar e-mails(dois) de dentro da casa de outra enorme figura humana, o blogueiro Francisco Galvão, do qual não vou dar muitas pistas. Aí vai ser mais fácil descobrir onde estive.

Voltemos a Washington. Batizado assim pelo pai, torcedor do Fluminense. Washington em homenagem ao Washington de 1983/1984/1985, o Washington do Casal/20, em dupla com Assis, não o Coração Valente, mais recente. Washington, 30 anos, lembra pouco daquele tricolor que duelava com o Flamengo de Zico, Adílio, Andrade e Bebeto, Vasco de Geovani, Roberto Dinamite, Mauricinho e Romário, um Vasco que valia discussão em boteco.

Começamos a discutir futebol e, depois da segunda cerveja, entrou Copa do Mundo. Washington comparou Neymar a um jogador da praia que ornamenta a pousada, Bazóia. "Neymar parece jogador de beira de praia, corre sem destinação". Não sou o jornalista e crítico de Neymar, Alex Medeiros, mas tive uma vontade danada de conhecer Bazóia. Estava pescando e é meio enjoado, abusado. É Neymar.

Washington gosta do futebol de Ganso, que até parece com ele, alto, brancão e espigado. Fiquei calado. Ganso pra mim deixou o futebol suave e macio em 2010 ou 2011. Foi como paixão fulgurante quando termina, vira desamor.

Escolhi a Espanha favorita e ele achou que o Brasil tem chance. Por conta da CBF, das maracutais e da arbitragem. Triste de quem faz aos cambalachos e pensa que o povo, por mais longe que esteja, está alienado.

Na comunidade mais tapuia, pela parabólica, tem lá um Neto comentando bobagem, a repercussão do discurso de um Romário, um jornal que sobra na cadeira do barbeiro. Ou na poltrona do ônibus que transporta ao distrito vizinho.

Washington tocou num ponto perigoso. Elogiou Dunga. Meti porrada verbal. Rimos em camaradagem. Fomos escalar o time do vexame de quatro anos atrás. Esqueci do lateral-esquerdo. Júlio César, Maicon, Lúcio, Juan e... Gilberto Silva, Felipe Melo( et caterva), Kaká e Elano; Robinho Eu Sou Neymar Amanhã e Luís Fabiano.

Washington não conseguiu também. Lembrei Nilton Santos, Marinho Chagas, Marco Antônio, Júnior, Mazinho, Branco, Roberto Carlos, a cotovelada de Leonardo em Tab Ramos dos Estados Unidos em 1994 e...nada.

- Era um cara de cabelo enrolado, muito menos enrolado que o de Marcelo!

A pista de Washington ainda era fraca.

Fiquei com vergonha. De mim que sei decorado o time do ABC vice-campeão de 1969, um ano antes de nascer: Floro; Gaspar, Piaba, Ivan Matos( que não jogou a final e foi substituído por Gaspar que foi substituído por Batista) e Cidão; Arandir e Beto; Izulamar, Alberi, João Galego e Esquerdinha.

Fui pensando, pensando e pedi licença a Washington. Peguei a chave do quarto e estava o Guia da Copa de 2010. O nome é Michel Bastos. Juro que não lembrava. Washington também não.

Tomei mais duas cervejas.

Alzhemier precoce , amnésia, ou o cara que não jogava porra nenhuma. Washington, tão solidário, escolheu a terceira alternativa. Não troco de pousada por dinheiro nenhum.

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